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domingo, 14 de junho de 2015

MENOS MILITAR, MAIS LIBERTÁRIO! NELSON MANDELA, TUDO A VER COM A NOSSA ESCOLA!



O Conselho de Escola e a Associação de Pais e Mestres da Escola Municipal de Educação Infantil  “Guia Lopes” acredita ser fundamental para a consolidação do Projeto Político Pedagógico e às futuras gerações de alunos e famílias que vierem a ter seus filhos matriculados nesta Unidade Educacional, a alteração do nome da escola para EMEI Nelson Mandela.
Leia, na íntegra, a nossa justificativa para mais esse sonho.

Proposta para alteração de nome da EMEI Guia Lopes para EMEI Nelson Rolihlahla Mandela com a anuência da comunidade escolar.

                A EMEI Guia Lopes iniciou suas atividades no Bairro do Limão na década de 50 quando, à luz da concepção revolucionária de Mário de Andrade à frente do Departamento de Cultura da Prefeitura Municipal de São Paulo, foram criados os parques infantis que pretendiam garantir aos filhos de operários o direito a viver suas infâncias. Experiência pioneira na organização da educação infantil pública tinha como principal fundamento aproximar as crianças da diversidade étnica- brasileira, através da arte e dos jogos tradicionais infantis.
                José Francisco Lopes, o Guia Lopes, foi o herói do Exército Brasileiro na Guerra do Paraguai que guiou as tropas brasileiras durante a Retirada da Laguna. Sem desconsiderar sua importância histórica, sua memoria encontra-se preservada através do registro de seus feitos incorporados ao nome de um município localizado em Mato Grosso do Sul, Guia Lopes de Laguna. É também homenageado por um grupo de escotismo em São Paulo e Porto Alegre, Grupo Escoteiro Guia Lopes, por Escola Estadual de Ensino Médio Guia Lopes, localizada no Rio Grande do Sul, Rua Guia Lopes RS., e uma Estalagem Guia Lopes em Minas Gerais. 
                Localizada na Avenida Professor Celestino Bourroul, como Parque Infantil desde 1955 ou como Escola Municipal de Educação Infantil a partir de 1985, a EMEI Guia Lopes não conseguiu se constituir como referência educacional ou cultural aos munícipes do Bairro do Limão, durante seus longos anos de existência.
                Há onze anos, deu-se início a um projeto de resgate da imagem da escola junto aos moradores do bairro, atraindo a comunidade para conhecer a missão, a visão e os valores preconizados por seu Projeto Político Pedagógico. A promoção de eventos abertos à comunidade e a consolidação da parceria entre a escola e as famílias das crianças, foram responsáveis por um processo intenso de construção de novas concepções, levando-nos ao aperfeiçoamento das práticas pedagógicas no interior da unidade educacional e para além de seus muros.
                Para a EMEI Guia Lopes o marco histórico da conquista e do reconhecimento que a fez despontar no cenário educacional da Cidade de São Paulo, deve-se a iniciativa pioneira de incluir em seu currículo o ensino da História e Cultura Afro-brasileira e Africana, preconizado pela Lei 10.639|03.
                Revelar a dimensão e a significativa influência das raízes africanas na gênese da cultura brasileira teve como prerrogativa tornar visível a história de vida de nossas crianças e seus familiares, garantindo-lhes a igualdade de direitos e valorizando os aspectos identitários desta comunidade que, até então, não tinham sido reconhecidos como fundamentais para os processos de ensino-aprendizagem e para a construção da identidade das crianças e adultos de dentro e de fora da escola.
                Em 2011, com o início do Projeto denominado “Azizi Abayomi, um príncipe africano” – Diversidade Biológica e Cultural - que garante, até hoje, a construção de uma educação infantil para e pela igualdade racial, recebemos como resposta a esta iniciativa a pichação em nossos muros, da frase “VAMOS CUIDAR DO FUTURO DAS NOSSAS CRIANÇAS BRANCAS”, acompanhada por símbolos nazistas. O fato repercutiu em todo o território nacional, dando visibilidade à escola e a necessidade de garantirmos o exercício pleno da cidadania desde a mais tenra idade.
                A mobilização da Secretaria Municipal de Educação, da Diretoria Regional de Educação Freguesia| Brasilândia, de vários segmentos da sociedade civil, crianças, famílias e profissionais da EMEI Guia Lopes nos possibilitou dar uma resposta assertiva à sociedade, quando realizamos a pintura artística dos muros para encobrir os sinais do racismo latente num país que até os dias atuais insiste no mito da democracia racial.
                Há cinco anos encontramos, nas falas de nossas crianças, a certeza de se tratar de um projeto que, em sua essência, traduz a qualidade social que a educação básica deve incorporar aos seus discursos e práticas.
                Em 2014, apresentamos a história de vida do líder negro Nelson Rolihlahla Mandela que, conduzido pela criatividade infantil, tornou-se avô do nosso Príncipe Africano Azizi Abayomi garantindo a continuidade de um cenário repleto de imaginação, fantasia e afetividade que permeiam nossa realidade pedagógica. Hoje, “Vovô Madiba”, como é chamado por nossas crianças, esta presente em todas as rodas de conversa que tratam da temática como símbolo de luta por uma sociedade mais justa e igualitária.
                Desde o início, o apoio das famílias, dos órgãos municipais e da sociedade civil ao projeto foi decisivo, ajudando-nos a dar visibilidade à premente necessidade de promovermos uma educação infantil que combata o racismo, o preconceito e qualquer tipo de discriminação, bem como tornou público os resultados desta prática pedagógica. A elevação da autoestima e o empoderamento da comunidade escolar nas tomadas de decisão edificaram os alicerces de uma gestão democrática, cujos caminhos não admitem retrocesso.
                Atualmente a EMEI Guia Lopes é procurada por famílias que, conhecem e reconhecem no Projeto Político Pedagógico da unidade, um poderoso instrumento de mudança social. Professores que querem contribuir e fazer parte da nossa história e estão em busca da construção de uma educação libertadora, crítica e construtiva também chegam à escola, através dos concursos de remoção promovidos pela Secretaria Municipal de Educação.
                A EMEI Guia Lopes, nos últimos anos, recebeu inúmeros prêmios pela consistência de sua proposta pedagógica, entre eles, encontram-se: Salva de Prata concedida pela Câmara Municipal de São Paulo pelos relevantes serviços prestados à comunidade, 6º Prêmio Educar para a Igualdade Racial promovido pelo Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdade (CEERT), 1º Prêmio Municipal de Educação em Direitos Humanos, além de conter um acervo considerável de reportagens e matérias que transformaram o espaço educativo da escola em objeto de estudo dos cursos de Pedagogia, Mestrado e Doutorado em diversas Faculdades Públicas e Privadas da Cidade de São Paulo. Foi parceira do Instituto Avisa Lá, na elaboração do documento “Educação Infantil e práticas promotoras da igualdade racial”, incluído na bibliografia dos concursos públicos promovidos pela Secretaria Municipal de Educação.
                Este ano, a necessidade de uma reforma geral da escola, colocará em risco nossa própria identidade, através da demolição dos muros que registram a história que esta sendo construída e que se tornou símbolo da nossa luta contra a intolerância e o desrespeito à diversidade humana, luta esta personificada pela vida e obra do líder mundial, Nelson Rolihlahla Mandela.
                Para garantir a continuidade de um trabalho exitoso no que se refere à educação das  relações étnico raciais no Município de São Paulo e para que as marcas de nossa história não sejam diluídas pelo tempo, o Conselho de Escola e a Associação de Pai e Mestres da Emei Guia Lopes, propõe a alteração da denominação de nossa escola para EMEI Nelson Rolihlahla Mandela – Madiba.
                Tal solicitação justifica-se pelo fato de que a denominação ora proposta visa tornar permanente e atemporal, o estudo das relações humanas no contexto escolar e o reconhecimento da identidade das crianças e famílias que usufruem deste espaço educacional, através do estudo e da memória a ser preservada daquele que representa, em toda a sua complexidade e grandeza, a luta contra a segregação racial.
                Trata-se, portanto de manter vivo o desafio de eliminar as injustiças sociais através de uma célebre frase daquele que nos parece ser o único patrono capaz de representar nossos ideais: “A Educação é a arma mais poderosa para mudar o mundo”.
                Nelson Rolihlahla Mandela, advogado e Presidente da África do Sul, conhecido líder mundial que lutou contra o sistema de governo denominado apartheid (vida separada) que pregava a segregação racial em um país de maioria negra, autor de um manifesto negro contra as injustiças sociais, conhecido como a Carta da Liberdade, reconhecido pela Anistia Internacional por uma vida dedicada à proteção e promoção dos direitos humanos,  merecedor do prêmio Nobel da Paz por sua luta pela igualdade racial. Conduziu seu povo a viver uma transição entre o antigo regime de exclusão e uma democracia multirracial. Fundou, em 2007 o grupo The Elders que reúne líderes mundiais com o objetivo de discutir e trabalhar pela paz e os direitos humanos ao redor do mundo.
                Desta forma, evidenciamos aspectos que justificam nossa escolha que vão além da denominação proposta, posto que a biografia de Nelson Mandela ensejou e ensejará estudos e nos auxiliará a construir  e manter viva a nossa própria identidade,  sedimentando este espaço escolar como um território de referência educacional no trabalho com as relações étnico raciais, conforme fundamentos registrados em nosso Projeto Político Pedagógico.
                Nossa solicitação encontra amparo legal, nos temos do Artigo 14, incisos I e II, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei n.º 9343|1996 que prevê as normas de garantia de uma gestão democrática do ensino com a participação da comunidade escolar e local, através do Conselho de Escola, consideradas suas peculiaridades, e “caput” do Artigo 15 da mesma Lei que assegura a progressiva autonomia pedagógica e administrativa às Escolas.
                E, ainda nos termos do Artigo 7, parágrafo único, da Lei 14.454|2007 que  dispõe sobre a denominação e a alteração da denominação de vias, logradouros e próprios municipais e matérias correlatas que determina as condições para homenagens à figuras públicas, exigindo que a personalidade escolhida tenham prestado importantes serviços à Humanidade, à Pátria, à Sociedade ou à Comunidade e, neste caso, que possua vínculos com o logradouro, com a repartição ou o serviço nele instalado ou com a população circunvizinha.
                A Lei n.º 15975/2014, acresce, ao Artigo 8 da Lei n.º 14.545|2007, a obrigatoriedade de anuência absoluta dos membros do Conselho de Escola da respectiva unidade escolar para o propositura de alteração da denominação de estabelecimentos oficiais de ensino público municipal, bem como nos termos do  inciso II do mesmo artigo, que possibilita homenagear personalidade que, não tendo sido educador, tenha uma biografia exemplar no sentido de estimular os educandos para o estudo.
                O Regimento Educacional da EMEI Guia Lopes , em seu Artigo 2, define-a como sendo uma escola gratuita, laica, direito da população e dever do poder público e estará a serviço das necessidades e características de desenvolvimento e aprendizagem dos educandos, isenta de quaisquer formas de preconceitos e discriminações de sexo, raça, cor, situação socioeconômica, credo religioso e político, dentre outras.
         Ainda, no Capítulo III que versa sobre o Conselho de Escola, em seu Artigo 30, classifica-o como um colegiado de natureza consultiva e deliberativa como forma de garantir a construção da autonomia pedagógica, administrativa e financeira da escola.
         Certos da relevância de nossa proposta, uma vez que se fundamenta nos princípios de uma Pátria Educadora, submetemos à apreciação de V. Sa. esta que seria uma conquista significativa para a nossa comunidade e para a futuras gerações da cidade de São Paulo.

 “Nesta Rua Lopes Chaves
Envelheço, e envergonhado
Nem sei quem foi Lopes Chaves.”
(Mario de Andrade  - “Lira Paulistana”, 
Paulicéia Desvairada).



segunda-feira, 8 de junho de 2015

O Mito - O que pode e o que não pode na Educação Infantil

A cada dia somam-se novas exigências aos profissionais que atuam na Educação Infantil posto que é impossível conviver no ambiente escolar com crianças de quatro e cinco anos, sem lhes reconhecer as competências e analisar, à luz as pedagogias de Paulo Freire, de que forma a infância esta sendo vivida, o que povoa o universo infantil no século XXI e como promover a transformação das relações e estruturas de poder no contexto escolar.  Não é tarefa simples mobilizar gestores, coordenadores pedagógicos e professores para abrirem mão de seus pretensos poderes nas relações unilaterais tão bem estabelecidas nas práticas pedagógicas e administrativas das escolas. Ao falar sobre o processo de conscientização, tal como Freire o compreendia, significa reconhecer a necessidade de darmos  voz àqueles dos quais exigimos o silêncio e, em contrapartida, exercitar a escuta atenta daqueles que foram levados a pensar que é possível ensinar sem aprender ou que reduzem a importância de seu papel social quando, em seus discursos, ainda persiste a ideia de que nasceram para “dar aula”. Considerando que nossas crianças têm acesso a uma quantidade significativa de informações e que na mesma medida os adultos têm cada vez menos tempo para conversar sobre esta sobrecarga de realidade, muitas vezes imposta de forma distorcida, surge ou deveria surgir uma nova escola, como um  ambiente laico, reflexivo, libertador e transformador que a infância tem como direito garantido por lei. Assim como Freire, acredito que a escola e seus atores devam se apropriar do mundo em que vivem, assumindo o compromisso histórico de transformar a realidade e não terceirizar sua responsabilidade em formar cidadãos conscientes, críticos e atuantes. Hoje, a exigida qualidade social da Educação nos obriga a revisitar a obra de Paulo Freire com mais regularidade.
Para dar respostas as mais diversas e complexas demandas, definimos com um dos pilares do Projeto Político Pedagógico da EME Guia Lopes o protagonismo infantil,  considerando-o como condição mister para o trabalho com projetos na infância. A concepção de educação, de criança e da própria docência é, em si, inovadora porque pouco vivida nos meios educacionais. Digo isso porque é impossível falar sobre a importância do processo de conscientização  das crianças da educação infantil, sem considerarmos os efeitos que a desconstrução de uma educação autoritária e repressora gera no corpo docente quando é convidado a alçar voos cada vez mais ousados.  Uma escola que não garante o protagonismo docente, dificilmente formará cidadãos reflexivos e atuantes. Trata-se, portanto de três níveis de formação, distintos, mas indissociáveis: criança, família e escola.
Desconsiderar que crianças de quatro e cinco anos estão expostas ao mundo antes mesmo de nascer e constroem impressões complexas sobre a realidade em que vivem me parece ser uma grave omissão e um grande equívoco das práticas pedagógicas reproduzidas pela educação básica brasileira.
Um sistema educacional que determina quando, o quê e com quem devemos aprender, sedimenta ainda mais a ideia de que existem dois mundos, duas realidades: uma apropriada para a infância e outra exclusiva para o universo adulto. Nesse sentido é fundamental que a escola se constitua  em um terreno fértil para que todos compartilhem suas opiniões, desejos e necessidades e construam, coletivamente,  novos saberes sobre si e sobre o outro. Para além do discurso, é importante exemplificar como vivemos o protagonismo infantil na rotina escolar da EMEI Guia Lopes por meio do projeto que propõe a discussão sobre a diversidade humana. É comum os profissionais de nossa escola serem questionados sobre a conveniência de filosofarmos com nossas crianças sobre racismo, preconceito e  discriminação. A dúvida mais frequentemente é a suposição de que seria cedo demais para tratarmos dessas e de outras questões com crianças tão pequenas. Este incômodo, revestido de preocupação, vem seguido de uma argumentação também muito comum que determina a idade de seis anos como propícia para este tipo de discussão. Não coincidentemente, o que deve ou não deve compor o universo infantil corresponde ao rito de passagem entre a pré-escola (pré-vida) e o ensino fundamental e num lapso de memória, esquecemos que há pouco tempo os educandos de seis anos eram considerados crianças e permaneciam nas escolas de educação infantil. Esta compreensão de mundo justifica a ideia de que o racismo surge, magicamente,  aos sete anos. É como se a percepção das injustiças sociais só fosse possível aos oito, como se a leitura de mundo  fosse iniciada aos nove, quando se pretende que as crianças das escolas públicas estejam alfabetizadas.  É a mesma visão que acredita que a sexualidade infantil deva ser discutida, apenas, entre os adultos. Paulo Freire já anunciava sobre a importância da “desmitologização” da educação que insiste em compartimentar o ser humano e, consequentemente fragmentar a construção do conhecimento. Poucos sabem que discussões dessa natureza surgem das próprias crianças da educação infantil, quando o professor assume sua própria incompletude e se transforma em um mediador aprendiz nas questões relacionadas à realidade que compartilhamos e à vida que todos vivemos.
A autonomia, a liberdade e o exercício pleno da cidadania são conquistas que a nova escola precisa perseguir como ideal de formação para toda comunidade. A capacidade de pensar sobre os temas mais complexos e polêmicos da atualidade já faz parte da vida de nossas crianças, elas só precisam encontrar um educador que esteja disponível para ouvi-las. Este educador, por sua vez, deverá habitar uma escola que promova uma educação libertadora e humanizada.
Há um movimento desejável e extremamente rico quando tratamos da relação entre a escola e a família. É quando a criança, afetada,  transformada e consciente, assume o papel de agente transformador e leva para casa as discussões que teve durante a rotina escolar. Imediatamente os pais procuram a escola para compreender os caminhos que percorremos com seus filhos. É nesse exato momento que se encerra um ciclo de construção e outro é imediatamente iniciado.

A Escola de Pais é um projeto que pretende atender aos anseios, inquietações e dúvidas das famílias sobre as propostas de trabalho  da escola e amplia a participação dos pais na vida escolar de seus filhos. Ao mesmo tempo em que provocamos algumas reflexões em nossos alunos, marcamos encontros com seus pais para divulgarmos e discutirmos os resultados de nossas intervenções através das falas infantis. Estes momentos de formação são repletos de afetividade e espanto. Os pais ficam perplexos ao descobrir que seus filhos são exímios observadores da realidade e capazes de conversar sobre assuntos que jamais foram foco de conversa no ambiente familiar. Independentemente do conhecimento que esta sendo construído, após a ampliação do repertório de nossas crianças e a discussão com suas famílias, entra no cenário escolar o que chamo de pedagogia consciente em que são somadas as mais diversas competências para, juntos, vislumbrarmos uma nova ordem que será novamente questionada e reformulada.
É preciso que se somem discursos, pedagogias e filosofias com o objetivo único de transformar a educação em um processo de conscientização sem rupturas.
Cibele Araujo Racy Maria
SP 08 de junho de 2015

ESCOLA DE PAIS

“A participação das famílias exige a partilha do poder e o poder exerce-se para que sejam tomadas as decisões nem sempre consensuais ou que, nem sempre, interessam por igual a todas as partes”.
Ramiro Marques


                Justificativa: Uma escola democrática se constrói com sucessivas tentativas de aproximação e a construção de vínculos afetivos entre a comunidade e os diversos atores escolares. Dá-se de forma gradativa e lenta posto que se  trata de um processo de sedução em que múltiplos interesses estão em jogo e encontrar pontos de intersecção não é tarefa fácil.
As resistências ficam ainda mais evidenciadas quando tratamos da educação de crianças de quatro e cinco anos. Ao mesmo tempo em que as famílias reconhecem a importância da inserção de seus filhos em grupos sociais mais amplos, a sensação de perda de seus filhos coloca-as numa posição de desconfiança e cobranças que as escolas não estão preparadas a assumir.
                A legislação nacional reconhece, a partir dos anos 90, a importância da família no contexto escolar e cria, para além da obrigatoriedade, mecanismos para uma participação mais efetiva e afetiva no desenvolvimento das crianças, missão de qualquer instituição educacional. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação ( Lei 9394|96), artigo 1º, 2º, 6º  e 12; o Estatuto da Criança e dos Adolescente (Lei 8069/90), nos artigos 4º e 55; o Plano Nacional de Educação e o Regimento Interno das Unidades Educacionais da Rede Pública de Ensino asseguram o direito e o dever das famílias de participar na construção do Projeto Político Pedagógico da escola que seus filhos frequentam.
                Aqui reside a responsabilidade das escolas públicas em reconhecer que, apesar das disposições legais, cabe a ela considerar a carga emocional que pesa sobre a família quando realiza o segundo parto de seus filhos, como costumo classificar.
                Esta segunda separação é envolta em sentimentos de incertezas e dúvidas, porque diferentemente dos primeiros meses de vida, em que a família tem controle absoluto sobre as necessidades e desejos de seu filho, a escola representa o desconhecido para ambos.
                Podemos agregar aos momentos de instabilidade dessa segunda ruptura, o fato de que as famílias atendidas pela rede pública de ensino, na maioria das vezes, não têm o direito de escolher em qual escola querem matricular seus filhos. A imposição desta ou daquela escola, baseada na proximidade de sua residência contribui para o aumento de tensões e resistências nos primeiros contatos entre os pais e a escola.
                É certo que a administração pública não teria outra forma de garantir vagas as crianças de zero a seis anos, se não a de estabelecer critérios para esse atendimento, mas cabe às escola reconhecer o alicerce frágil em que esta relação é inicialmente construída.
                A cultura escolar autocêntrica, ainda mergulhada em sua própria finitude, desconhece sua comunidade, suas histórias e expectativas e por isso, organiza eventos em que promove sua importância e geralmente, de forma velada, terceiriza a culpa às famílias pelos insucessos que vêm acumulando.
                Este projeto surge pela necessidade de desconstruir práticas, inverter prioridades e personificar as relações pessoais no âmbito escolar e para fora dele.
                É certo que antes de abrir as portas à comunidade escolar é necessário que a equipe de servidores públicos que nela atua,  estabeleça vínculos com a escola o que representa um grande desafio porque a alta rotatividade de professores na rede, inviabiliza esta construção ou a interrompe ano a ano.              
                Desta forma, a “Escola de Pais” ´surge como resultado de um processo iniciado a dez anos e um novo investimento que visa imprimir qualidade as relações entre escola e família através dos membros da equipe gestora.
                Apesar das concepções e práticas que envolvem a criação de uma Escola de Pais  serem práticas constantes da EMEI Guia Lopes, institucionalizá-la foi o primeiro passo para sua incorporação ao Projeto Político Pedagógico da unidade.
                Como gestora e leitora assídua e reflexiva da obra de Paulo Freire, acredito ser oportuno trazer sua concepção de escola  como sendo “um modo de ser” que em muito traduz a minha primeira preocupação ao organizar eventos para as famílias das nossas crianças.      Segundo ele: “Não devemos chamar o povo à escola para receber instruções, postulados, receitas, ameaças, repreensões e punições, mas para participar coletivamente da construção de um saber que vai além do saber de pura experiência feita, que leve em conta as suas necessidades e o torne instrumento de luta, possibilitando-lhe transformar-se em sujeito de sua própria história [...]. A escola deve ser também um centro irradiador da cultura popular, à disposição da comunidade [...] um centro de debate de ideias, soluções, reflexões, onde a organização popular vai sistematizando sua própria experiência. A escola não é só um espaço físico. É um clima de trabalho, uma postura, um modo de ser.”(Freire, 1991, p.16).
                A prática da escuta da comunidade escolar possível pelos encontros promovidos pela escola, foram adicionadas às reuniões burocráticas  e pouco produtivas dos Conselhos de Escola e  Associação de Pais e Mestres.
                 Com objetivos específicos que se diferenciam daqueles presentes nas Reuniões do Conselho de Escola e da Associação de Pais e Mestres, abre-se um espaço para escuta dos pais, para a revelação de talentos da comunidade e cria-se a oportunidade para o protagonismo familiar no que lhe é mais caro: a formação de seus filhos.

OBJETIVO Geral: Transformar a escola num espaço democrático que acolha diversos atores e a pluralidade de suas ideias.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS:
- detectar as prioridades das famílias em relação à educação de seus filhos
- formar os pais nos assuntos de seu interesse e àqueles relacionados à proposta pedagógica da unidade.
- dialogar acerca de suas necessidades e anseios
- criar oportunidades para o protagonismo familiar no âmbito escolar
- estreitar os laços afetivos entre os pais e a escola
- elevar a auto-estima dos pais e das crianças
- estabelecer parceria mais efetiva com os membros das famílias que tiverem oportunidade de exercer suas habilidades para enriquecer os projetos didáticos durante o ano letivo.
- organizar comissões permanentes para gerenciar ações junto à comunidade e o entorno escolar
- ampliar o repertório das famílias sobre os processos de ensino-aprendizagem e a construção do conhecimento
- divulgar e refletir sobre o processo de formação dos professores, compartilhando os saberes construídos coletivamente.
- estimular sua participação crítica na elaboração do Projeto Político Pedagógico e na Avaliação dos Indicadores de Qualidade da Educação Infantil
- estabelecer parcerias com profissionais de outras áreas do conhecimento que promovam o debate de assuntos de interesse da comunidade.
- dinamizar a participação das famílias em eventos, antes, destinados aos professores e equipes escolares ( Reuniões Pedagógicas).

Metodologia
A Escola de Pais acontece por meio de encontros ou atividades abertas às famílias e funcionários da escola e podem ser classificados em cinco categorias.
Categoria 1 – Realização de encontros após o horário de funcionamento da escola em que o tema de interesse para o diálogo e reflexão é definido pelos pais participantes. Nesses encontros, a gestão prepara um material que, ao mesmo tempo, divulga conhecimentos produzidos sobre o assunto e incentiva a participação dos presentes através de desafios. Ao final do encontro, há sempre uma atividade planejada que se inicia no coletivo e segue como “lição de casa” para os pais. O objetivo destas atividades é sempre o de levar a discussão para casa e possibilitar a participação de outros membros da família, inclusive a criança.
Categoria 2 – Realização de encontros após o horário de funcionamento da escola em que a escola define o tema a ser abordado de acordo com a necessidade do projeto didático em andamento.  A escola desenvolve  dois projetos didáticos permanentes, a saber: Diversidade biológica e cultural no período das 7h00 às 11h00 e 15h00 às 19h00 e o Projeto de Onde vem?  Para Onde Vai? - Sustentabilidade e Consumismo no período da 11h00 às 15h00. Alguns dos encontros são desencadeadores de discussões pertinentes aos conhecimentos que as crianças estão construindo com seus professores. O objetivo destes encontros é ampliar o repertório dos pais sobre os temas e incentivá-los à pesquisa para compartilhar com seus filhos.
Categoria 3 – Realização de palestras com convidados especiais que tratam das temáticas definidas pelos pais ou pela escola.
Categoria 4 – Promove a participação dos pais nas rotinas diárias da escola, como protagonistas de ações educativas. A presença de pais em momentos de brincadeiras, dinâmicas, refeições em que assumem a posição de comando de uma turma de crianças. Durante as reuniões descobrimos talentos, entre os pais,  que são introduzidos nas rotinas das crianças através de oficinas. Aulas de dança e de consciência corporal já foram iniciadas esse ano.
Categoria 5 – Promoção de Eventos, festas, dinâmicas, gincanas, pesquisas e vivências previstas em calendário escolar ou no cronograma de ações coletivas dos projetos didáticos definidas durante o ano.
Categoria 6 – Comunicação Virtual Permanente – Portfólios Virtuais são diariamente atualizados contendo fotos e textos para que as famílias acompanhem as rotinas de seus filhos e possam conversar sobre o que vivem na escola. Através do Blog, é disponibilizada toda a documentação pedagógica da escola, possibilitando a consulta e a cobrança de ações não realizadas por parte da equipe escolar. Além disso, mantemos uma comunicação virtual através das redes sociais para esclarecimento de dúvidas.

RESULTADOS ESPERADOS
- Transformar a Escola em um espaço verdadeiramente democrático através da adoção de dinâmicas que favoreçam os processos coletivos e participativos de decisão.

- democratização das relações que se desenvolvem na escola, contribuindo para o aperfeiçoamento administrativo-pedagógico. 
Cibele Araujo Racy Maria
SP 08 de junho de 2015

terça-feira, 12 de maio de 2015

ENTREVISTA COM ALEXANDRE SCHNEIDER - SECRETÁRIO DA EDUCAÇÃO DE 2006 A 2012

Bastou assistir pela primeira a palestra da escritora Adchie Chimamanda - "Os perigos de uma história única" que revela a obliquidade do pensamento, do discurso e da ação quando não nos interessa conhecer os vários lados de uma mesma questão, para aperfeiçoar minha prática na administração escolar pública.
Inspirada pela ideia sedutora de apresentar o "outro lado" de assuntos relacionados à educação, ocorreu-me a ideia de proporcionar às professoras da EMEI Guia Lopes a chance de expor suas dúvidas e questionamentos a alguém que esteve à frente da Secretaria Municipal de Educação.
Alexandre Schneider assumiu a secretaria por seis anos (2006 a 2012) e durante sua gestão construiu políticas e programas que atenderam às necessidades e anseios dos professores, famílias, crianças e adolescentes da rede municipal de ensino. Ele e sua equipe construíram documentos que subsidiaram a construção do Projeto Político Pedagógico da EMEI Guia Lopes e de outras tantas escolas.  Convidei-o para compartilhar sua experiência com um grupo de professores que, em sua maioria, ingressou este ano na rede municipal.

Foi um momento esclarecedor, mais do que isso, foi uma troca, um encontro de pessoas comprometidas com a educação pública de qualidade.
Dentre as várias questões, uma grande parte fazia referência aos programas que foram criados durante a gestão do nosso convidado.  Falamos sobre o Programa Inclui, sobre a autonomia da escola para a construção de seus Projetos Políticos Pedagógicos através das Orientações Curriculares - Expectativas de Aprendizagens para a Educação Infantil e para as Relações Étnico-raciais, sobre a redução do número de alunos em sala de aula, sobre a marginalidade da Educação Infantil pela falta de políticas públicas específicas e ações de valorização desta etapa da vida escolar,  sobre os Indicadores de Qualidade da Educação Infantil, sobre os critérios para a aquisição do kit de material escolar e sobre o “Rede em Rede”. Discutimos também sobre fatos que nos preocupam, tais como: a falta de articulação entre CEI|EMEI|EMEF, sobre a desistência de muitos professores durante o curso de pedagogia ou após o início da docência e sobre a necessidade de rever o papel da supervisão escolar. Foi um encontro muito produtivo. Uma experiência que todas as escolas municipais deveriam proporcionar as suas equipes!

domingo, 15 de março de 2015

LEI 10.639|03 e os processos de alfabetização na educação infantil pública.

Há cinco anos me dedico a aperfeiçoar minha prática pedagógica e administrativa frente à Direção de uma Unidade Educacional da Rede Municipal de Ensino e pretendo aqui compartilhar os impactos que o trabalho com a Lei 10.639|03 provocaram sobre minha atuação profissional de forma agradavelmente irreversível.
Agregar ao currículo as reflexões sobre as relações étnico raciais me fez repensar ou reafirmar minhas convicções sobre um tema que divide educadores e especialistas.
Inúmeras constatações que fiz durante o meu percurso como educadora revelam que, de alguma forma, as Escolas de Educação Infantil garantem o acesso à linguagem escrita, a leitura, ao letramento que por ser óbvio, chamarei a partir de agora de processos de alfabetização, sem nenhum receio de contrariar grandes profissionais envolvidos com a educação pública. Acredito que a pluralidade de ideias deva ser respeitada, e que a todas seja garantido o direito de livre expressão. A marginalidade com que estas práticas ocorrem dentro das unidades escolares me preocupa, posto que a formação específica para lidar com esta questão só é oferecida aos professores do ensino fundamental o que empobrece os argumentos, a prática e consequentemente as discussões daqueles que defendem a ideia de que a construção das competências para a leitura de mundo, em que estão inseridas a escrita e a leitura, sejam um direito de todas as crianças e não, apenas, das crianças com seis anos completos matriculadas na rede pública.
A clandestinidade gera ainda mais equívocos, cujas consequências se refletem na vida daqueles que deveriam protagonizar seus próprios processos de construção.
Para além da discussão sobre alfabetização na educação infantil, entra no cenário da minha vida profissional a Lei 10.639|03 e a incansável busca em construir coletivamente um Projeto Político Pedagógico que tivesse como missão promover ações afirmativas pela igualdade racial e que estivesse igualmente comprometido com a qualidade social da educação.
O trabalho de combate ao racismo, ao preconceito e à discriminação nos exige uma profunda capacidade de escuta, reflexão e ação e nos permite enxergar além do que estamos acostumados a ver.
Com todos os sentidos aguçados compreendemos a realidade de outra forma e foi isso que aconteceu quando deixei de “não pensar” sobre algumas questões. A primeira esta relacionada ao fato de que as crianças chegam à EMEI escrevendo seu nome, grafando letras e números o que prova a dedicação familiar em suprir as lacunas que, em seu modo de ver e viver, só as escolas particulares são capazes de preencher. Mais uma vez, nossas crianças estão expostas àquilo que tanto combatemos em termos de alfabetização: a cópia de signos, o desenho das letras, por uma única razão, a escola em que os pais as matriculam, não correspondem às suas expectativas reais.
Caminhando ainda um pouco mais, surge a necessidade imperiosa de aproximar as famílias da vida escolar de seus filhos como um dos fundamentos para a conquista de uma gestão democrática. Como garantir de fato o espírito democrático dentro de um universo que constantemente desconsidera as expectativas de sua comunidade em relação ao desenvolvimento de seus filhos? Avalio que não há a menor possibilidade de parceria quando um dos lados envolvidos tenta insistentemente convencer o outro de que seus desejos e preocupações não correspondem ao que há de mais moderno em teorias pedagógicas.
Novamente o olhar e a escuta que adquiri com a implementação da Lei 10.639|03 invadem meus poros e analiso o perfil das crianças que estudam em escolas públicas. Declaradas ou não, em sua grande maioria são negras, seguidas por brancas e indígenas de baixa renda e considero relevante definir a quem interessa esta eterna discussão sobre o alfabetizar ou não as crianças de 4 e 5 anos no ensino público.
Procurei encontrar um tipo de concepção de educação que justificasse o sistemático investimento em ações que deixam cada vez mais exposta a distinção histórica e injusta entre a infância dos ricos e dos pobres, dos negros e dos brancos em meu país.
Definitivamente a vida é muito curta e as crianças permanecem apenas por dois anos na educação infantil e decidi não investir esforços nessa empreitada, porque considero urgente a tomada de decisão e recebi um auxílio valioso que me apresentou uma resposta definitiva aos meus anseios. Conduzida pelas mãos de Paulo Freire, acelerei meus passos, peguei alguns atalhos ao som das falas das crianças e famílias da EMEI Guia Lopes, e ouvi, silenciosamente: “Seria uma atitude muito ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que permitissem às classes dominadas perceberem as injustiças sociais de forma crítica”.
Agradeci em voz baixa e depois falei em alto e bom som, durante o primeiro encontro da ESCOLA DE PAIS, sobre os processos de alfabetização dentro de uma escola pública de educação infantil.
Sim, eu e minha equipe garantiremos as nossas crianças os mesmos direitos que são inquestionáveis às crianças de outras escolas. 
Nós acreditamos que as crianças negras, bolivianas, brancas e orientais das escolas públicas são tão competentes quanto às crianças do ensino privado.
Acreditamos que construir a competência escritora e leitora não exclua a ludicidade implícita em todos os desafios que somos capazes de vencer para desvendar os grandes mistérios do mundo letrado.
Sim, alfabetizar é libertar nossas crianças de um destino que lhes é imposto e, portanto, pouco promissor. É um investimento de longo prazo com resultados surpreendentemente imediatos.
Acreditamos que a promoção da igualdade racial começa quando damos oportunidades iguais aos “diferentes” e que é exatamente assim que se constrói uma escola democrática.
Cibele Araujo Racy Maria - SP 14 de março de 2015.

terça-feira, 10 de março de 2015

ESCOLA DE PAIS - TEMA ALFABETIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO INFANTIL


Hoje, dia 10 de março de 2015, realizamos o segundo encontro da Escola de Pais.
Discutimos as expectativas das famílias em relação à aprendizagem de seus filhos, em especial ao processo de alfabetização.
Muitos, como em anos anteriores, demonstram uma grande preocupação em relação a escrita e leitura, talvez porque já tenham compreendido que nas escolas públicas de educação infantil este assunto seja um grande tabu e que seus filhos não terão os mesmos direitos que outras crianças.

Há anos percebemos que alguns de nossos alunos chegam à escola escrevendo seu nome, grafando algumas letras e recitando números, prova da dedicação familiar em suprir as lacunas que só as escolas particulares preenchem. Esta situação sempre nos inquietou profundamente, principalmente porque a escola que considera impróprio alfabetizar crianças de 4 e 5 anos, é a mesma que propaga a importância da participação dos pais na vida escolar de seus filhos e são impiedosas quando eles não comparecem às reuniões de pais. Nos parece incongruente querermos a participação das famílias em uma escola que não as escuta, que não reconhece suas expectativas, que não reconhece seus valores e cuja a história de vida não é levada em consideração quando determina o que as crianças devam ou não aprender. 
Há tempos os ideais de uma escola democrática são propagados aos quatro ventos , aos trancos e barrancos, mas nos perguntamos a que tipo de democracia estariam se referindo as políticas públicas?
Que escola democrática seria esta que não garante os mesmos direitos a todos?
Que concepção de criança seria esta que determina uma distinção histórica entre a infância dos ricos e dos pobres?
Que concepções de ensino-aprendizagem, de escola, de alfabetização e de infância teriam os professores que se negam a alfabetizar seus alunos do ensino público e alfabetizam seus alunos quando assumem suas funções em seu segundo vínculo? 
De que professores estamos falando quando sabemos que muitos alfabetizam seus próprios filhos antes mesmo de os colocarem na escola e negam, aos filhos de outros, os mesmos direitos? 
Que escola é essa que chama os pais para as reuniões para convencê-los de que os seus desejos e preocupações não correspondem aos mais avançados estudos sobre a educação infantil que consideram o BRINCAR como sendo a única forma de aprender? 
De que brincar estamos falando mesmo? Daquele que é preciso ser ensinado e aprendido ou daquele que supõe que as crianças livres, leves e soltas aprendem sozinhas?
Chegamos a várias respostas e elas nos parecem satisfatórias. Não é preciso desprezar ideias e conhecimentos, adotar cegamente uma única corrente de pensamento, idolatrar apenas um grande educador ou tê-lo como única referência porque em Educação isso tem um nome e inúmeras consequências às nossas crianças da escola pública: perder o trem da história e permanecer exatamente onde estão.
Sejamos, então, revolucionários porque a mudança é urgente nem que para isso tenhamos que nos render ao óbvio: as consequências de não alfabetizar crianças de 4 e 5 anos de famílias de Higienópolis não são as mesmas quando negamos esse direito aos nosso alunos.
Investimos no acesso, nos processos de construção da escrita e das estratégias de leitura  e o melhor de tudo é que não fazemos nenhum tipo de cobrança às crianças e, acreditem, isso dá certo!
Acreditamos que as crianças das escolas públicas têm os mesmos direitos que as crianças de escolas particulares. 
Acreditamos que as crianças negras, bolivianas, brancas e orientais das escolas públicas são tão competentes quanto as crianças das escolas particulares.
Acreditamos que construir a competência escritora e leitora seja a brincadeira mais gostosa e desafiadora que podemos oferecer.
Acreditamos que a promoção da igualdade racial começa quando damos oportunidades iguais aos diferentes e que é exatamente assim que se constrói uma escola democrática.
Foi uma noite deliciosa!!! Obrigada pela presença!!!



segunda-feira, 9 de março de 2015

Escola de Pais, porque a escola é para todos!


Hoje, dia 09 de março de 2015 inauguramos a Escola de Pais na EMEI Guia Lopes.
Nosso objetivo é o de formar os pais sobre questões que envolvam o desenvolvimento de seus filhos e divulgar os projetos didáticos da escola para que possam participar da vida escolar de nossas crianças.
A cada encontro, um novo tema.
Discutimos nesta segunda-feira, se crianças de 4 e 5 anos são capazes de atitudes racistas. Quando questionados, os pais foram unânimes em afirmar que sim. Esta foi a grande surpresa da noite! E que surpresa!
Divulgamos como formamos nossos professores e como as ações afirmativas pela igualdade racial e de gênero são levadas para as crianças.
Nessa escola tem lição de casa! Distribuímos ao final do encontro um pequeno texto para leitura.

O Brasil tem feito progressos significativos na melhoria da vida de suas crianças. Reduziu os índices da mortalidade infantil, o número de famílias que vivem com renda inferior a um dólar; melhorou e intensificou as políticas de ensino e de assistência às famílias. Contudo, isso ainda não está acontecendo para todas as crianças que vivem no País, especialmente quando observamos a situação de meninas e meninos indígenas e negros. Dentro de uma perspectiva de direitos humanos, essa igualdade é fundamental para que todos se beneficiem igualmente dos progressos alcançados. Essas crianças e adolescentes ainda vivem em contextos de desigualdades. São vítimas do racismo nas escolas, nas ruas, nos hospitais ou aldeias e, às vezes, dentro de suas famílias. Deparam-se constantemente com situações de discriminação, de preconceito ou segregação. Uma simples palavra, um gesto ou um olhar menos atencioso pode gerar um sentimento de inferioridade, em que a criança tende, de forma inconsciente ou não, a desvalorizar e negar suas tradições, sua identidade e costumes. O racismo causa efeitos.
              
 O racismo causa impactos danosos do ponto de vista psicológico e social na vida de toda e qualquer criança ou adolescente. A criança pode aprender a discriminar apenas por ver os adultos discriminando. Nesses momentos, ela se torna vítima do racismo. A prática do racismo e da discriminação racial é uma violação de direitos, condenável em todos os países. No Brasil, é um crime inafiançável, previsto em lei. Essa é uma situação que preocupa o UNICEF, uma vez que compromete o desenvolvimento pleno da maioria das crianças e adolescentes no Brasil. Existem cerca de 57 milhões de crianças e adolescentes no Brasil, e sabemos que nenhum deles nasceu discriminando, seja por cor, raça ou etnia. Crianças são criativas quando estão aprendendo, e nós, adultos, devemos estimular esse potencial criativo. Por isso, o UNICEF lança uma campanha que faz um alerta sobre os impactos do racismo na vida de milhões de crianças e adolescentes brasileiros e convida cada um a fazer uma ação por uma infância e adolescência sem racismo.
               
Estudos na área de educação infantil revelam que, ainda na primeira infância, a criança já percebe diferenças na aparência das pessoas (cor de pele, por exemplo). A responsabilidade dos adultos é muito importante nesse momento, evitando explicações ou orientações preconceituosas. Não importa se uma criança é negra, branca ou indígena. Qualquer criança ao conviver em uma realidade de desigualdade e de discriminação tem a ilusão de que negros, brancos e indígenas devem ocupar necessariamente lugares diferentes na sociedade. Seja diante da TV, nas escolas, ou em histórias infantis, as crianças vão se desenvolvendo com imagens retorcidas de papéis e lugares segundo cor de pele ou aparências. Por essa razão, uma criança pode achar “desvantajoso” ter nascido negra ou indígena ou pertencer a um grupo étnico-racial mais discriminado.
                 Os efeitos disso são a negação e o esquecimento de suas histórias e culturas. Portanto, nosso compromisso é construir um lugar justo, igual e sem discriminação para nossas crianças. O Brasil tem exemplos de ações de solidariedade e de respeito às diferenças que precisam ser expandidos e disseminados. O UNICEF quer colaborar com o governo e com a sociedade para ampliar o alcance dessas boas experiências que visam minimizar os impactos do racismo sobre a infância, contribuindo para uma sociedade mais democrática.
Fonte: UNICEF, Brasília- 2010.

ESPERAMOS VOCÊS EM NOSSO PRÓXIMO ENCONTRO!
Abraços,
Equipe Gestora