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quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Projeto: Figuras de Afeto, um sonho, uma realidade.


“Toda pessoa é afetada tanto por elementos externos - o olhar do outro, um objeto que chama a atenção, uma informação que recebe do meio - quanto por sensações internas - medo, alegria, fome - e responde a eles. Essa condição humana recebe o nome de afetividade e é crucial para o desenvolvimento.”
Henry Wallon
1. Nome da U.E: EMEI GUIA LOPES
2. Eixo temático: O Currículo Integrador da Infância
3. Modalidade : Relatos de Prática
4. Título do trabalho que será apresentado:
Figuras de Afeto, um sonho, uma realidade.
Inspirada na proposta de educação de Henry Wallon, Vigotsky e Paulo Freire que se contrapõem aos métodos pedagógicos tradicionais que priorizam o desenvolvimento intelectual e aliam o despenho dos alunos à quantidade de conteúdos que ele é capaz de reter, surge o Projeto “Figuras de Afeto – Um sonho, uma realidade” que define como fio condutor das práticas administrativas e pedagógicas da EMEI Guia Lopes, as emoções das crianças, seus desejos e necessidades.
A inserção de bonecos como estratégia pedagógica para o desenvolvimento de projetos didáticos revela-se eficaz, porque respeita a capacidade imaginativa das crianças desta faixa etária e ao mesmo tempo comprova que o protagonismo infantil é capaz de revolucionar as relações humanas no ambiente escolar, conferindo significado aos conhecimentos construídos pela comunidade educativa.
Desconstruindo a lógica que determina, em diferentes contextos históricos, quem deva ser o centro dos processos educacionais, a figura de afeto aparece como um terceiro educador capaz de canalizar interesses e mobilizar crianças e adultos para o imenso prazer em aprender.
5. Período de realização: fevereiro de 2008 até a presente data.
6. Envolvidos na ação realizada: Equipe Gestora, Equipe Docente, Equipe de Apoio, Equipe das Empresas Terceirizadas de Merenda e Limpeza, Comunidade Escolar, Profissionais de diversas áreas do conhecimento.

7. Justificativa:
A proposta pedagógica da EMEI GUIA LOPES prioriza, em seu fazer cotidiano, ações que estimulem a aquisição de saberes, permeando-as com a ludicidade necessária a faixa etária de nossas crianças, por meio de várias linguagens. Na atividade lúdica, o que importa não é apenas o produto da atividade, mas a própria ação, o momento vivido. Neste contexto, garantimos os direitos fundamentais da criança e reconhecemos, dentre eles, o “brincar” como sendo o pilar sobre o qual as aprendizagens significativas se concretizam.
A escola possui um quadro de referência que determina o que deve ser priorizado pelos projetos didáticos elaborados pelos professores e para organizar seus objetivos foram criados quatro eixos de trabalho, a saber: cuidar de si e do outro, educar para o afeto, educar para o prazer de aprender e cuidar do futuro.
Portanto, as figuras de afeto surgem para humanizar o currículo escolar e trazer para o primeiro plano as emoções envolvidas nos diferentes espaços de convivência durante os processos de ensino – aprendizagem.
Para garantir a formação de cidadãos críticos e atuantes é necessário investir em suas habilidades e deixa-los atuar desde a primeira infância.
Atendendo às Diretrizes Nacionais para a Educação Infantil, às Orientações Curriculares para a Educação Infantil, os pilares para uma Educação do Século XXI e os Direitos e Deveres da Criança e do Adolescente, surge o projeto “Figuras de afeto, um sonho, uma realidade” tendo como base as minhas observações sobre as relações interpessoais no âmbito escolar, em especial àquela construída entre professores e alunos e em que medida estas relações interferiam positiva ou negativamente nos processos de aprendizagem das crianças.  Confirmando a teoria de que a afetividade e a cognição são processos indissociáveis e o reconhecimento de que a diversidade humana diz respeito, também à qualidade que imprimimos as nossas relações, avaliei como necessário  ampliar o círculo de convivência das crianças com outros profissionais da escola. Descontruir o sentimento de posse sobre alunos e compartilhar a responsabilidade da formação das crianças com todos da escola, da família e da comunidade exigiria a definição de um ponto de intersecção entre os interesses infantis, os objetivos da escola e as prioridades das famílias.
Esta educação compartilhada previa também aproximar as crianças da figura do diretor escolar, descontruindo o mito que envolve a sala da direção e as relações de poder que ali se estabelecem ou habitam o imaginário infantil.  A criação das figuras de afeto possibilitou a todos conversar, trocar ideias em torno de um interesse comum, definido pelos projetos permanentes da EMEI Guia Lopes. Outro fator que justifica a criação das figuras de afeto, foi  considerar uma característica observável na infância que é a facilidade de reconhecer e verbalizar defeitos e qualidades do outro e não de si mesmas, afinal nos conhecemos através dessa relação. É comum as crianças serem capazes de contar o que o amigo fez ou deixou de fazer, mesmo que elas próprias tenham participado de toda a ação. Neste sentido, ter um terceiro elemento nesta relação, possibilitou- nos conversar sobre diversos temas, uma vez que não falamos, inicialmente, de nós mesmos.  A linguagem utilizada para garantir o envolvimento de todos não poderia ser outra senão aquela impregnada de fantasia que as figuras de afeto representam.
Ao optar por trabalhar com projetos, a escola e seus professores dispensaram a prática de comemorar algumas datas que são comuns à maioria das escolas privadas e públicas. Desta forma, personagens como o Papai Noel e o Coelho da Páscoa, que classifico como figuras de afeto, deixaram de fazer parte do universo escolar. Reconhecendo a importância desses facilitadores do trabalho docente, era preciso criar uma figura que fizesse sentido no contexto da EMEI Guia Lopes, que imprimisse a laicidade aos projetos permanentes da escola e que, principalmente não estivesse associada ao consumismo. Nasce, em 2008, o espantalho Tetelo para cuidar da plantação da horta.
Hoje temos vinte e duas figuras de afeto, com papéis definidos e que transitam pela escola, inseridos nos projetos didáticos.
9. Objetivos:
10. Desenvolvimento do trabalho:
Constatando o número considerável de crianças que traziam para a escola paninhos, chupetas, brinquedos e a sensação de segurança que estes objetos de transferência eram capazes de proporcionar, investi na criação de um objeto que possibilitasse igual sensação e que permanecesse na escola.  Até então, tinha a pretensão de criar e estreitar vínculos afetivos entre as crianças, suas famílias e a escola.
Em 2008 surge o primeiro espantalho da nossa horta. O encantamento tomou conta desta história quando Tetelo, nosso espantalho, foi retirado para ganhar um belo banho de loja. A reação das crianças me levou a considerar que tinha achado um tesouro. Questionadas pelo sumiço, a grande maioria delas decidiu que ele estava se sentindo muito só. Dias depois surge Tetelo, acompanhado de Tetela que, por insistência infantil, era muito mais do que uma simples amiga.
A partir desta reação infantil e do poder de mobilização conferido ao “objeto”, esta denominação não lhe cabia mais. A humanização ou personificação de objetos é uma das características da infância e foi preciso, apenas revesti-la de intencionalidades pedagógicas.
As crianças não tinham outro interesse que não fosse o de cuidar de Tetelo e sua amada. Era inadmissível para elas, por exemplo, deixar o casal de espantalhos na horta em dias de chuva.
Foi assim, ouvindo as crianças, que as figuras de afeto ganharam papel de destaque nas práticas pedagógicas da EMEI Guia Lopes e, desde então nos auxiliam a alcançar os objetivos propostos pelo Projeto Político Pedagógico.
A existência dessas personagens possibilitou a inversão de papéis dentro da escola. As crianças passaram de receptoras de cuidados e educação à responsáveis por cuidar e educar de nossas figuras de afeto.
Conclui que era preciso institucionalizar a importância da afetividade na educação infantil e criar um ambiente propício para que os jogos simbólicos não fossem prerrogativa, apenas das crianças. O primeiro passo foi formar professores e funcionários para estarem atentos às falas de nossas crianças porque seriam elas a definir os rumos dos projetos didáticos. As figuras de afeto seriam, a partir daquele momento, a estratégia para desenvolvermos as habilidades sociais de nossas crianças e porque não dizer, dos adultos também.
Não foi difícil surgir a ideia de que essas figuras ganhavam vida à noite, quando a escola ficava vazia. Esta fantasia foi sendo ampliada quando a fada, pintada na parede da brinquedoteca, apareceu para conversar com as crianças ou a boneca Emília passou a morar na sala de leitura e acordou de um longo sono, usando seu pó de pirlimpimpim, para ensinar nossas crianças a cuidarem dos livros da escola. O que dizer, então do Kiriku que saiu das telas do cinema para brincar de esconde-esconde em nosso parque?
Os assuntos relativos à história de vida dessas figuras de afeto estão a serviço da concretização das ideias infantis. Nossas crianças já perceberam que sobre este assunto não há ninguém que saiba mais do que elas. Quando nos lançam perguntas sobre suas hipóteses, estão na realidade nos desafiando com sua criatividade, com sua imaginação. É um jogo onde o poder de criação não esta nas mãos dos adultos, mas com elas, as crianças.
Fases do Projeto:
Anualmente, cumprimos algumas etapas para garantir o envolvimento dos novos professores e crianças com nossas figuras de afeto.
Fase I – Resgate da história de vida das figuras de afeto, através de vídeos criados durante os anos anteriores.
Fase II – Preparativos para a chegada das figuras de afeto – normalmente organizamos uma festa com todos os itens definidos como necessários pelas crianças.
Fase III – A convivência – A cada dia, uma turma de crianças fica responsável por cuidar e ensinar nossas figuras de afeto, fazendo-as participar da rotina escolar.
Fase IV – Introdução do tema inicial do projeto didático do ano, definido pela equipe docente e gestão no mês de dezembro do ano anterior.
Fase V – As correspondências – os temas do projeto são apresentados às crianças, por meio de cartas escritas, durante a noite, pelas figuras de afeto. Estas cartas propõem desafios sobre o tema com o objetivo de fazermos uma sondagem do repertório infantil. São essas cartas e as respostas a elas que alimentam nossos projetos.
Fase VI – As famílias - promoção de eventos temáticos, palestras e pesquisas.
11. Avaliação da ação: Após sete anos criando e convivendo com as figuras de afeto coube-me registrar a importância que esta estratégia teve no desenvolvimento de nossas crianças. E ainda, se foi possível produzir conhecimentos e avanços no processo de socialização através desses símbolos.
Os resultados são perceptíveis e inquestionáveis. Foi possível constatar, por exemplo, que as normas de convivência (combinados) deixaram de ser uma lista opressora, difícil de cumprir e passaram a ser uma questão que envolvia a permanência das figuras de afeto no cenário escolar. Hoje, as crianças cuidam dos livros porque rasga-los fazem o pó de “pirlimpimpim” diminuir e, sem ele, a boneca Emília não tem forças para ganhar vida. Os brinquedos da brinquedoteca ganham vida à noite, quando a fada chega para visita-los. Que carrinho poderia passear pela escola sem rodas? Como o time de futebol montado pelas bonecas poderia jogar se estivessem faltando pernas? O que dizer, então da salada de alface e beterraba, especialidade culinária dos super heróis que todos provam após horas de brincadeira, se eles não tivessem braços para fazer a colheita em nossa horta? Sim, é neste clima que construímos os combinados de cada ambiente de convivência.
Um projeto que tinha, inicialmente como público alvo as crianças, contagiou a todos, a tal ponto de ser catalizador das emoções e sentimentos  dos adultos.
Pude perceber que as figuras de afeto foram capazes de seduzir nossos alunos e leva-los à pesquisa e a construção de conhecimentos com uma significação nunca vista em nossa escola. Aguçamos a curiosidade das famílias e percebemos que as crianças levavam para casa, diariamente, os conhecimentos construídos na escola.
Apropriando-me da essência do pensamento de Claudio João Paulo Saltini é inegável a associação existente entre afetividade e inteligência, afetividade e aprendizagem.
Se o objetivo inicial era o de trabalhar a afetividade infantil e criar personagens por meio das quais as crianças pudessem demonstrar seus sentimentos e necessidades além das quatro paredes das salas de aula, minhas expectativas foram superadas. As figuras de afeto nos auxiliam a manter unidade em nossos projetos.
Tetelo, Tetela, Sofia, Kauê, Azizi Abayomi, Dayo e Henrique e, este ano, as quinze crianças da Fundação Nelson Mandela que chegaram, nos possibilitam trabalhar a sexualidade, as relações étnico-raciais, sustentabilidade, consumismo, o papel dos homens na educação de seus filhos, os estereótipos relacionados ao gênero, as diferentes configurações familiares e outros projetos que ousamos sonhar, levando-nos a uma reflexão diária sobre as relações sócio afetivas que envolvem as experiências infantis nos ambientes escolares e sua íntima relação com os processos de aprendizagem.
As crianças da escola, hoje, contam com o acolhimento, auxílio e atenção de todos os funcionários da escola, inclusive os das empresas terceirizadas de merenda e limpeza, porque compramos a ideia de refletirmos sobre tudo o que nos afeta e falamos a mesma língua: a do afeto.
Hoje, continuamos recebendo a visita de nossos ex-alunos que procuram informações sobre Tetelo e Tetela. O que me causa alegria e espanto porque são crianças com doze e treze anos que utilizam as figuras de afeto para matar a saudade da escola.
            Através do afeto que as figuras personificam, contamos nossas próprias histórias, revelamos um pouco do que somos e a história da humanidade. O príncipe africano Azizi Abayomi, sua esposa Sofia e seus filhos Dayo e Henrique, a fada, a boneca Emília entre outras, enchem de magia e encantamento os ambientes da escola e nos auxiliam a tratar de temas que, nós adultos, ainda resistimos em colocar na roda. Esta família real nos instiga a refletirmos, todos, sobre o que pensamos de nós mesmos e dos outros e é, escancarando de vez o que nos é muito íntimo, que nos tornarmos seres humanos melhores.
            Hoje, quando as figuras saem de cena, a preocupação é tão intensa quanto a que assisti há sete anos, portanto mesmo que fosse a vontade dos adultos da escola, não seria possível por um ponto final nessa história. Seria o mesmo que tolher nossos afetos, emoções e sentimentos.
            A equipe da EMEI Guia Lopes abraçou a docência como instrumento de mudança social. Optarmos por uma educação mais humanista nos levou a descobrir que direitos, todos temos, mas a grande e libertadora brincadeira é vivê-los intensamente desde a infância.