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quarta-feira, 1 de maio de 2019

Educação Integral e Integradora

Fui convidada a participar de uma formação para alunos e alunas do curso de pedagogia de uma universidade de São Paulo sobre inclusão. Em seguida, para expor nosso trabalho no seminário sobre Educação Integral pela Secretaria Municipal de Educação e descobri quanto as apresentações estavam intricadas e eram, na essência, complementares.
Fui buscando imagens para colocar numa apresentação de power point (muito mais importante para mim do que para o público) e elas foram reveladoras e enriqueceram e nortearam a construção das minhas argumentações.





Optei por iniciar a minha conversa sobre o que seria inclusão para desconstruir de imediato a ideia que nos leva a pensar sempre sobre crianças com deficiências. Pesquisei imagens na internet e não me surpreendi com as ilustrações que existem sobre o tema. Algumas nos levam a crer que inclusão seja mesmo uma coisa de criança ou, quando muito, algo que deva ser feito por adultos para|com as crianças. Nada que contrarie a ideologia adultocêntrica presente no dia a dia das instituições de ensino.
 Seria possível considerar o adultocentrismo algo positivo nas escolas? Calma, calma a gente vai desconstruir seu significado juntas. Adoro dar novos significados para ideias já concebidas. Apropriação indevida? Acho que não chega a tanto.
Acredito ser impossível falar sobre Educação Integral sem  falar sobre os conceitos que temos sobre inclusão e como praticamos seus princípios dentro das rotinas escolares.
Na tentativa de conduzir meus pensamentos, percebi ser necessário ilustrar todas as minhas questões sobre o que deveria considerar importante, ou não, compartilhar com as colegas de profissão.
Questões centrais evidenciaram as minhas lutas diárias e para as quais eu dediquei bons anos da gestão da escola em que me formei e continuo me formando como diretora. Inclusão de quem? Em quê? Inclusão do quê? Para quê?
Ao responder as minhas próprias questões, fui  desenhando o caminho que a EMEI Nelson Mandela construiu e as prioridades que elegeu para, mais recentemente, poder  participar de um seminário sobre Educação Integral e afirmar que a nossa opção em aderir ao programa não mudou em nada a nossas rotinas e concepções porque sempre vivemos a integralidade da educação mesmo convivendo com nossas crianças e famílias por apenas seis horas diárias. Nada mais óbvio, mas necessário repetir que o tempo de permanência não é o único aspecto a ser considerado quando falamos em educação integral.





A primeira questão me levou a falar daquele que tem sido meu Plano de Ação por mais de quatorze anos.
 Inclusão do quê? Em quê?







Inclusão da Escola na Comunidade.

Um caminho árduo para resgatar significados e reconstruir uma história desgastada pelo tempo e pelas relações. 
Não foi e não tem sido fácil restabelecer esse elo. É preciso dedicação. É preciso querer muito e mais, é preciso acreditar que isso seja importante. Quando afirmo que a escola é das crianças e da comunidade, ainda há estranhamentos porque há muitos que acreditam que elas sejam dos servidores públicos que as habitam. Houve sim, a necessidade de desconstrução de alguns conceitos e preconceitos para que pudéssemos abrir de fato as portas e janelas da escola para a comunidade. Vencer processos internos e externos de exclusão que insistiam em considerar uns mais importantes que outros e outros sem importância alguma. Na verdade, esta é uma construção que continua sendo diária. 
Partindo da afirmativa que me parece mais assertiva e que foi dada por uma mãe da nossa escola numa formação dada em horário coletivo para as nossas professoras: Educação é relação. É relação com alguém ou com algo, mas é relação.
Pergunto: Que educação é possível quando as relações entre as equipes que a fazem acontecer estão deturpadas, desgastadas, ou mais diretamente  dizendo, quando essas relações de fato inexistem?
Impossível formar integralmente uma criança quando adultos não sabem se relacionar.
Impossível formar crianças para a igualdade de gênero e raça quando adultos se excluem por este ou outro motivo qualquer. Quando adultos hierarquizam, sem muitos critérios ou critérios que não sabem que usam, para diminuir a importância do outro. Impossível uma educação integral que exclua alguém de algo ou que foque em um único profissional a responsabilidade de tudo.(Lembram sobre o adultocentrismo? Aqui deturpo seu significado original para afirmar que tudo precisa começar com investimentos nesse segmento da escola: os adultos. O resto é consequência.


Convencer que todos da escola são importantes para a criança não foi tarefa fácil, mas posso garantir ser possível.
Claro que não há fórmulas e que, nesse caminhar,  foi preciso lidar em muitos momentos com diferentes frustrações.
Somados os esforço de valorização de todos os servidores em igual medida, vislumbrei a minha segunda missão. Uma missão que sabia não ser a mais fácil, posto que pesquisas já haviam anunciado que apenas 8% dos diretores se dedicavam aos fazeres pedagógicos das escolas em que atuavam. Essa constatação trazia em si, outras exclusões. E que exclusões!
Ainda hoje causa estranheza no ambiente escolar a figura de uma diretora pedagógica. 
Bem, para que  Projeto Político Pedagógico seja de fato reconhecido e validado é preciso que a(o) diretora(o) da escola participe ativamente de todos os processos pedagógicos e administrativos da unidade que pretende gerenciar.  
Há resistências nesse sentido. Há resistências em todos os sentidos.  Para construir novos olhares sobre a inclusão, considerando-a como responsável pela forma como as relações acontecem, alguns exercícios para trabalhar a empatia começaram a ser a estratégia principal para sensibilização de todos.


Não bastava tentar entender a atuação profissional do outro. Era preciso vivê-la.
Como construir um Projeto Político Pedagógico autoral se o quadro de apoio não participava de nada porque se sentia excluído ou se excluía para não se sentir excluído? Contraditório? Não, não é.
Como fazer entender que pessoas têm habilidades e interesses diferentes e que a escola é o melhor lugar para descobrirmos isso não apenas nas crianças, mas nos adultos também.
As fotos ilustram muito bem o que fomos construindo ao longo dos anos.
A equipe da secretaria se viu desafiada pelas crianças  a fazer uma pesquisa sobre o Planeta Júpiter porque ele não foi escolhido por nenhuma turma, durante um projeto didático. Mais do que isso, todos se uniram para preparar uma aula sobre suas descobertas, mas não qualquer aula. A equipe organizou experiências bem interessantes para aguçar a curiosidade de nossas crianças. Confesso, nunca aprendi tanto sobre Júpiter.
Em outro momento, as educadoras da empresa terceirizada de limpeza foram convidadas a ensinar aos professores a coreografia do “hino da escola” em uma reunião pedagógica, no mesmo dia em que  as professoras puderam explicar aos educadores e educadoras da escola, a nossa proposta educacional e quais os objetivos da nossa documentação pedagógica.
Isso era insuficiente. Havia mais pessoas que precisariam estar presentes e atuantes para que de fato se concretizasse uma Educação Integral, Inclusiva e portanto integradora: as famílias.
Vários convites foram feitos até que as famílias se sentissem à vontade para de fato participar de um jeito diferente daquele que sempre lhes foi oferecido.

Pais participando da formação de professores.
Pais definindo o que nossas crianças poderiam aprender.
Pais assumindo a condução de uma atividade com a turma de seu(sua) filho(a).

Portanto,
Se educação é relação
Se para uma boa relação é preciso empatia
Se a empatia é um passo para a inclusão...
Podemos afirmar que inclusão é a educação feita com empatia?

Poderíamos concluir que:
Para a educação ser integral é preciso que seja inclusiva
Para ser inclusiva ela precisa integrar
A educação só é integral se for integradora e portanto inclusiva.

Ou ainda...

A Educação Integral  e Integradora é o exercício de empatia de todos por todos em tudo?

Como uma educação integral e integradora deve ser libertadora, desejo que todos encontrem suas respostas!
Abraços
Cibele Racy
SP 01/05/2019