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quarta-feira, 12 de abril de 2017

As salas multisseriadas na EMEI Nelson Mandela, um processo em construção.

As classes multisseriadas não são uma grande novidade no meio educacional, nem tão pouco todas as discussões acaloradas sobre o assunto, em sua maioria tendendo para as dificuldades de gerenciamento que elas trariam aos profissionais da educação.
Em busca rápida pela internet é possível encontrar alguns artigos sobre o assunto em geral relacionados às escolas rurais ou quilombolas. Em sua maioria os argumentos tendem a justificar sua existência como solução às condições de difícil acesso ou pela pouca demanda nesses contextos o que nos leva a concluir que, a existência de salas multisseriadas surgem, no âmbito das políticas públicas, como uma resposta às demandas administrativas e distantes de uma reflexão mais aprofundada sobre seus benefícios pedagógicos.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais explicitam suas concepções de forma clara em diferentes contextos e reafirmam a necessidade de novos olhares para a educação infantil.
“Crianças expostas a uma gama ampliada de possibilidades interativas têm seu universo pessoal de significados ampliado, desde que se encontrem em contextos coletivos de qualidade. Essa afirmativa é considerada válida para todas as crianças, independentemente de sua origem social, pertinência étnico-racial, credo político ou religioso, desde que nascem. ” (PCN – pág. 15)
A interação é, portanto, uma prerrogativa inquestionável para aprender e quanto maior a possibilidade de conviver com a diferença, maior será o repertório humano de uma criança.
No entanto, em toda a legislação e documentação que norteiam a educação brasileira, em especial a pública, as crianças são sempre meticulosamente seriadas. Não é diferente quando na vida acadêmica, nos debruçamos a estudar inúmeros teóricos que classificam o desenvolvimento humano em meses, dias e anos. De certo e de alguma forma, pensar de forma fragmentada sobre quem são nossas crianças parece ser o fio condutor da nossa formação inicial. Como é certo também que algumas dessas leituras são indispensáveis.
Esta forma de aprender como se aprende pode justificar em certa medida a dificuldade e as resistências quando falamos em reunir em um único território diferentes idades e, portanto, jeitos de ser. Ao ouvir a argumentação de alguns professores contrários as salas multisseriadas é comum nos depararmos com um discurso ainda não superado sobre a dificuldade de gerenciar turmas heterogêneas. Interessante perceber que, durante alguns anos de trabalho, mesmo em salas divididas por idade, os argumentos não se modificam porque o ideal continua a ser um grupo homogêneo como se isso fosse possível. Portanto, falo aqui, que é urgente repensarmos a formação integral e integradora de pessoas que convivem (crianças|adultos|especialistas) não os distanciando da vida como ela acontece fora dos muros da escola. 
Alunos de uma escola particular de São Paulo - 07 a 10 anos.
Interação sem ruídos com nossas crianças
Posso afirmar que durante as discussões sobre a implantação de salas mistas, quase sempre a resistência é fundamentada em aspectos comportamentais da criança e não em sua capacidade cognitiva. A construção da autonomia, portanto, é vista como algo que se consolida apenas na relação da criança com o professor que ensina e é centro de todos os processos de aprendizagem.
Na década de 70 instituiu-se o PLANEDI – Plano Nacional de Educação Infantil que utilizava espaços ociosos das escolas municipais de ensino fundamental para abrir salas para crianças de 4, 5 e 6 anos. Tive a oportunidade de trabalhar nesse tipo de agrupamento no início de minha carreira e as lembranças são muito agradáveis, apesar da falta de estrutura. Não havia mobiliário então as cadeiras se transformavam em mesas sempre que necessário e algumas mães auxiliavam as crianças durante suas rotinas. Sem dúvida alguma essa experiência me preparou de alguma forma para o momento que vivo hoje como diretora de uma Escola Municipal de Educação Infantil.
Os processos para chegarmos ao ponto de acreditar ser importante e desejável o convívio de crianças de 4 e 5 anos formando um só grupo vem de longa data. Fomos construindo uma história e quebrando paradigmas de forma lenta e gradual antes de chegarmos a composição de salas multietárias.
Antes de adotá-las como uma opção pedagógica, iniciamos um processo de profunda reflexão sobre o nosso Projeto Político Pedagógico, herdado de anos anteriores e que eram de total desconhecimento do grupo de professores. Dar-lhe significado foi uma tarefa árdua visto que consistia na reunião de cópias da documentação elaborada pela Secretaria Municipal de Educação com pouca história da unidade e suas atividades.
Num ambiente colaborativo as ações
ganham novas significados
O primeiro passo foi desconstruirmos um currículo que diferenciava pela idade nossas intenções pedagógicas. Portanto chegarmos a um quadro de referência que excluísse as classificações por faixa etária foi desafiador. Mesmo assim, os objetivos, competências e habilidades continuavam a ter como base o que se supunha ser apropriado para as crianças menores e maiores. Estou falando de quatro anos de discussões e reflexões para abandonarmos os sonhos que habitavam o universo de vários professores no que se refere à facilidade de tentarmos rotular competências e classificar habilidades pela data de nascimento de nossas crianças.
Chegamos ao ponto, então, de iniciar o planejamento de forma coletiva o que nos fez perceber que as propostas de trabalho não precisavam ser adequadas às faixas etárias e que, contrariando o óbvio, o que necessitava de adequação era a forma como avaliávamos as respostas de nossas crianças. Constatamos, por exemplo, que ao adequar uma mesma proposta às crianças de quatro anos, subtraíamos de sua essência os desafios que ela representava. Desafios e provocações que despertam a curiosidade e que são, ao meu ver, fundamentais para a construção de novos conhecimentos.
Durante todo o percurso, foram estimuladas parcerias entre as turmas e o compartilhamento de projetos nos apontou a primeira evidência de que era preciso mudar. Nessas trocas de conhecimentos se revelou o que nossa observação já havia constatado. Crianças menores que se destacavam nesses momentos eram na verdade àquelas que os professores do infantil I (4 anos) se queixavam da disciplina. Investiguei a fundo essas relações e não foi difícil chegar a uma conclusão. As crianças que se destacavam em cada uma das turmas ainda constituídas por idade, eram as que demostravam, pela inquietude, não estarem confortáveis com seus parceiros de sala e com as propostas que lhes eram destinadas. Esta mesma situação era encontrada nas turmas de infantil II (5 anos) quando as falas diziam que esse ou aquele não conseguiam acompanhar o ritmo do grupo.
Se aprendemos com o outro...quanto mais diferente for o outro de mim, mais aprendo.
Paralelamente às observações, investimos no remanejamento de algumas crianças desconsiderando-lhes suas idades. O resultado não poderia ser outro, senão a mudança completa de algumas atitudes e o nível de envolvimento às provocações planejadas pelas professoras.
Adotarmos o trabalho com projetos coletivos nos ajudou na transição e construção de concepções em torno da proposta de salas multisseriadas. Um trabalho pautado nos interesses das crianças e não em sequências didáticas pré-concebidas pelos professores, foi fundamental para compreendermos e valorizarmos a pluralidade do pensar, pesquisar e encontrar respostas aos problemas. As contribuições das crianças na construção de uma teia de conhecimentos nos deram a noção exata de que não há idade para o aprender a conhecer.
Seguindo esse movimento, elegemos dois temas transversais coletivos que constituem nosso Projeto Político Pedagógico. As relações étnicorraciais e os princípios da Sustentabilidade. Essa decisão nos possibilitou transformar a escola em uma comunidade de aprendizagem o que desconstrói a ideia de que os alunos sejam propriedade de seus professores e que as possíveis dificuldades advindas de turmas multietárias sejam de sua responsabilidade exclusiva.

O estudo do programa “ Currículo Integrador para a Infância Paulistana (SME – 2015), nos levou a uma avaliação profunda sobre os nossos processos de trabalho e concepções e foi determinante para darmos concretude ao que nos parecia, até então, uma possibilidade inviável.
Todos temos muito a ensinar e a aprender.
Caminhando para a compreensão de que as salas multisseriadas são, apenas, uma das possibilidades de resposta para construirmos a integralidade da infância, estabelecemos uma parceria inédita com a supervisão e outras unidades escolares da rede, unindo EMEI, CEI e EMEF  para a realização de reuniões pedagógicas com pautas de discussão elaboradas de forma coletiva. O alinhamento de propostas ou mesmo o distanciamento entre o que pensam e fazem as escolas de diferentes níveis no ensino público municipal, alertou-nos para o fato de que há inúmeros investimentos a serem feitos.
Entre algumas reflexões que fizemos ao longo dos últimos anos, um evento em particular desencadeou nosso desejo de ir além das convenções e dificuldades. Durante uma reunião do Conselho de Escola, propusemos aos pais a discussão das salas multisseriadas para o ano de 2017. Num dado momento, o pai de uma de nossas crianças ponderou: “ Não vejo problemas em unir crianças de idades diferentes. Meu filho, por exemplo, convive com primos, vizinhos e amigos de idades diferentes. Isso só ajuda a criança a aprender a conviver com as diferenças. ”
O impacto dessa fala nos calou a todos. Como chegamos ao ponto de criar um ambiente educativo tão distante da realidade, da vida.
EM seguida passamos à ação!
Nossa opção em assumirmos o desejo de viver a vida como ela é, incorporando-a ao nosso projeto de educação tem nos trazido inúmeras descobertas. Após dois meses de implantação de salas mistas, colhemos experiências possíveis de relatar. Começamos pela forma positiva com que vivemos o período de acolhimento no início deste ano. Não há nada que se compare ao fato de termos crianças recebendo crianças e sendo responsáveis pela exploração de tempos e espaços que compõem as rotinas da escola. O choro e as resistências das novas crianças foram logo superados.
Passadas duas semanas, descobrimos alguns incômodos dos professores. Algumas manifestações revelaram um problema vivido há anos sem que tivéssemos parado para refletir. Havia sim uma hierarquização entre professores do infantil I (quatro anos) e infantil II (cinco anos). Para ser mais exata, havia uma discriminação baseada nos estereótipos criados para o perfil profissional de ambos. Generalizações que imputavam aos mais experientes as crianças maiores e aos novos profissionais, as crianças de 4 anos. Portanto, há anos, organizávamos as turmas pensando exclusivamente nos professores. Revelação impactante para toda a comunidade escolar.
Por conta de um procedimento enraizado e pouco questionado de atribuições de salas e períodos aos professores da rede municipal, a formação de salas mistas é uma verdadeira revolução na forma de pensar a educação. Livrarmo-nos de critérios pouco confiáveis, também foi uma grande conquista. Toda mudança traz consigo um turbilhão de emoções e é com elas que estamos trabalhando. Em alguns dias, na sala dos professores, a euforia ao descobrir que crianças de quatro anos são capazes de assumir a liderança do grupo, em outros as frustrações relacionadas ao comportamento e as dificuldades de gerenciamento do grupo.
Na EMEI Nelson Mandela a proposta de turmas multisseriadas não tem vínculo algum com os programas de governo que a entendem como fórmula para atender à demanda por mais vagas na educação infantil. Não é um procedimento administrativo, mas essencialmente pedagógico, assim como faz o método montessoriano
. O fato é que priorizar as aprendizagens de crianças e adultos é uma opção consciente alimentada e compartilhada por toda equipe e comunidade escolar.
Vamos além de reunir crianças de quatro e cinco anos, deixamos que outras crianças pulem os muros de nossa escola. A permanência de ex-alunos e alunos de outras escolas, públicas ou particulares, alimenta nossa prática.
Este ano, inicia-se um ciclo de discussões sobre a Base Curricular em todo o território nacional. A terceira versão do documento nos traz para análise um conjunto de dez competências gerais que, após aprovação do Conselho Nacional de Educação, guiará a reformulação dos currículos escolares. Entre elas, destaco:
“Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de origem, etnia, idade, habilidade|necessidade, convicção religiosa ou de qualquer outra natureza, reconhecendo-se como parte de uma coletividade com a qual deve se comprometer”.
Estas e outras competências só serão possíveis de desenvolver na pluralidade, na diversidade e na adversidade. A insistência em agrupar os semelhantes não provocará revolução alguma nos modos de convivência e, consequentemente, pautará os processos de aprendizagem naquilo que já sabemos ou que não sabemos e não temos interesse em saber.
Estamos engatinhando nas discussões e na prática que adotamos, mas as incertezas não nos impediram de encarar o grande desafio de colocar à prova nossas próprias competências.
O gosto pelo desconhecido é o que nos move!
Cibele Araujo Racy Maria
Diretora de Escola
SP 12|04|2017


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