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sábado, 11 de junho de 2016

A língua escrita na Educação Infantil


Leia, na íntegra, a entrevista concedida à Mônica Cardoso para o site Plataforma do Letramento.

Por Cibele Racy

1. Quais os prós e os contras da alfabetização na Educação Infantil?
Certamente é possível obter as mais diversas respostas quando tratamos da alfabetização na Educação Infantil, em especial nas escolas públicas. Há uma grande polarização sobre o assunto e sempre atrelada as mais recentes descobertas de outras áreas do conhecimento humano. Diante do fato de que vivemos em uma cultura letrada, o território escolar não pode se omitir diante da constatação inequívoca de que a cidadania só pode ser vivida com o domínio de alguns conhecimentos, dentre eles a escrita e a leitura. A defesa de concepções que apregoam os malefícios da alfabetização na educação infantil desconsidera o fato de que ela ocorre com ou sem o consentimento da escola, dos professores e teóricos que versam sobre o tema. Ela se inicia no contexto familiar.  
Reconhecendo, também a marginalidade com que a alfabetização ocorre dentro de unidades de educação infantil na rede pública  e  que a maioria das crianças que as freqüentam são negras, declaradas ou não, é possível  estabelecermos conexões e iniciarmos nossa reflexão sobre a quem interessa a manutenção das discussões sobre o que deve ou não ser ensinado a elas. A clandestinidade gera ainda mais equívocos, cujas consequências se refletem na vida daqueles que deveriam protagonizar seus próprios processos de construção.
A omissão da escola e, portanto, o cerceamento de direitos deixa nossas crianças expostas àquilo que tanto combatemos em termos de alfabetização: a cópia de signos, o desenho das letras, por uma única razão, a escola em que os pais as matriculam, não correspondem às suas expectativas reais.
A alfabetização e seus processos estão atrelados a um dos pilares  que dão sustentação aos princípios de uma gestão democrática. Como garantir de fato o espírito democrático dentro de um universo que constantemente desconsidera as expectativas de sua comunidade em relação ao desenvolvimento de seus filhos? Avalio que não há a menor possibilidade de parceria quando um dos lados envolvidos tenta insistentemente convencer o outro de que seus desejos e preocupações não correspondem ao que há de mais moderno em teorias pedagógicas.
Diante dessa constatação, incluímos em nossa proposta político-pedagógica a formação continuada de nossos professores sobre a construção da escrita e brincamos muito de escrever com nossas crianças em situações cuja sua função social é explícita.  Considero como dever da escola orientar os passos das crianças e de suas famílias rumo à conquista de seus direitos que não devem ser diferentes daqueles conquistados em outros cenários educacionais.

2. Como a EMEI Guia Lopes trabalha a questão da alfabetização na Educação Infantil? E como tem sido as respostas dos alunos e de seus pais?
O currículo da EMEI Guia Lopes é permeado por características próprias do universo infantil. O encantamento, a fantasia e a imaginação estão presentes em todas as nossas propostas e provocações didáticas às crianças.  A escrita e  leitura não poderiam estar fora desse contexto.
Não definimos uma lista de conteúdos a serem trabalhados, mas atitudes que esperamos façam parte da vida de nossas crianças, dentre muitas o interesse em aprender a escrever. Adotamos uma estratégia pedagógica eficiente quando criamos as figuras de afeto (aquelas que afetam) cujo contato só é possível através de cartas, posto que só ganham vida durante à noite, quando não há mais ninguém na escola. Os vínculos que são estabelecidos com esses bonecos fazem brotar cartas diárias escritas pelas crianças e outras tendo o professor como escriba, tal a necessidade e urgência de estabelecer essa conexão. Portanto, todos os contextos relacionados às atividades de escrita estão vinculados a necessidade de comunicação com nossos terceiros educadores, as figuras de afeto.
Temos como objetivo inicial que as crianças se sintam à vontade para escrever o que para algumas é um desafio vencido ao longo de um ano. O medo de errar e a justificativa de não saber fazer, sentimentos criados durante os processos desencadeados pelas famílias sobre a escrita, imobiliza a criatividade e tolhe qualquer iniciativa de construir hipóteses sobre a palavra escrita. Superada a insegurança e conquistado o prazer de se comunicar, adotamos durante a rotina escolar, momentos em que a função social da escrita se faz presente, mas, além disso, criamos situações em que a necessidade do registro tem por objetivo guardar na memória os bons momentos que vivemos durante os projetos didáticos.
Destinamos, em nossa linha de tempo e espaços, dois dias da semana para que a criança escreva sobre algo que lhe foi significativo. Com o auxílio de professores atentos e formados, esses momentos propiciam os avanços de nossas crianças em suas hipóteses de escrita e a construção de estratégias de leitura.
Diariamente, brincamos de descobrir o nome do ajudante do dia, de adivinhar a palavra secreta e, em outras situações, de construção coletiva de textos.
3. Qual a importância do brincar e do trabalho com outras linguagens e formas de expressão para o desenvolvimento da criança na Educação Infantil? De quais formas os professores podem estimular aprendizado de maneira lúdica na Educação Infantil?
É interessante estabelecer uma relação entre o que pensamos sobre alfabetização e o que asseguramos as nossas crianças durante sua permanência na escola. Nosso currículo se concretiza nas interações que ocorrem nos diferentes tempos e espaços da escola. As vivências no parque, na sala de leitura, na brinquedoteca, na horta, na cozinha experimental , no espaço de artes compõem o cenário ideal para que inúmeras formas de expressão sejam reconhecidas em sua importância e portanto garantidas como direitos de nossas crianças. Hoje é impossível pensar na educação como áreas fragmentadas do conhecimento e desenvolvimento humano. É dessa forma que compreendemos o brincar. A brincadeira não deve ser considerada como uma linguagem apartada das provocações que planejamos para as crianças em todos os momentos da nossa convivência. É  por meio das concepções que temos sobre o  brincar que construímos nossas propostas de trabalho com a alfabetização.
Importante ressaltar que o investimento na criação de espaços diferenciados de convivência foi concebido para as crianças, mas se constituem em objeto de formação para nossos professores. Pensar a educação fora de quatro paredes, entre o que pode e o que não pode,  é um dos nossos desafios.
4. Existe uma cobrança das escolas e/ou dos pais para acelerar a alfabetização na Educação Infantil? O brincar ainda é visto como algo menor de menor importância, que não acrescenta ao aprendizado?
A ansiedade de professores e pais sobre as questões que envolvem a alfabetização  na educação infantil pública é alimentada pelo desconhecimento dos processos que estão envolvidos no seu processo de construção. A negação de direitos, as idéias difusas sobre o que seja sócio-construtivismo e a conceituação equivocada de que a construção de hipóteses de escrita se constitua em um método e não em uma teoria do conhecimento, fez crescer a insegurança em todos os atores envolvidos com a alfabetização das crianças.
Para solucionar tais cobranças sociais, compreendemos também que é dever da escola proteger nossas crianças de tudo aquilo que desrespeite a sua infância, seu ritmo, seus desejos e necessidades.  Não há outra solução que não seja compartilhar os saberes sobre o assunto. Adotamos, então algumas dinâmicas de formação das famílias e professores cujo objetivo é evidenciar como as crianças pensam a escrita, o que já sabem sobre ela e de que forma podemos ajudá-las a avançar.
A partir dos encontros promovidos pelo  projeto denominado “Escola de Pais”, abordamos todos os assuntos eleitos por eles como prioritários. Assumimos, então, uma postura diferente quando o assunto é alfabetização. Ao invés de lhes responder que a educação infantil é o tempo de brincar, explicamos a eles como brincamos de ler e escrever com seus filhos e de que forma a família pode nos ajudar nessa formação.





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