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domingo, 9 de agosto de 2015

Currículo Oculto e a Formação Docente

A defasagem entre a formação inicial e as práticas docentes exigidas pelos projetos políticos pedagógicos das escolas alimenta o debate sobre a qualidade do ensino e incita uma corrida em busca de compensações durante o exercício da docência desses profissionais.
A necessidade de monitorar os estabelecimentos de ensino responsáveis por esta formação faz parte das preocupações do Ministério da Educação e esta expressa no Plano Nacional da Educação  (2014|2024).
De imediato, apresenta-se como proposta de solução a formação continuada oferecida pelas Secretarias de Educação e pela equipe gestora das escolas nos horários coletivos de estudo. É comum, no entanto, os formadores em seus diversos níveis de atuação, replicarem o modelo que criticam, inundando os professores com mais postulados teóricos ou contextos históricos que, a princípio foram exaustivamente vistos e cobrados pelas universidades. Fecha-se, assim, um ciclo ininterrupto de formação que poderia ser caracterizado como “um pouco mais do mesmo” e que não contribui para real necessidade dos docentes.
A escola transformou-se em terreno fértil para que o currículo oculto ocupe mais destaque do que a proposta pedagógica consolidada pela comunidade escolar, uma vez que as intenções pedagógicas são efetivadas no momento em que o professor compartilha sua proposta de trabalho com as crianças e adolescentes e o acompanhamento deste momento só é possível ser feito de forma esporádica pelos formadores.
Podemos pensar que para minimizar os efeitos da pouca intimidade com conhecimentos técnicos que embasam a prática em sala de aula, a ação formadora deva adquirir um caráter preventivo feito através da intervenção no momento em que o planejamento é concebido. Posso afirmar que esta intervenção é devastadora e gera um clima de insatisfação e baixa autoestima o que não nos leva a lugar nenhum, senão a estagnação e a intensificação das dúvidas e inseguranças docentes.
Desde então, compreendo que a formação eficaz é aquela baseada na prática do que fazemos e não nas intenções do que pretendemos fazer, naquilo que já foi realizado e a avaliação do que já foi vivido. Este procedimento pode parecer assustador para alguns, mas o resultado é a conscientização da equipe docente sobre a necessidade de desconstruir uma prática cristalizada nos meios educacionais há, no mínimo, três décadas.
É fácil identificar a inversão de prioridade quando os professores planejam primeiramente a atividade que será apresentada aos alunos para, depois, saírem em busca de um objetivo que justifique sua criatividade. Aqui reside à profusão de consequências inesperadas, quando o que se ensina e o que se aprende não reflete o que esta explícito na proposta pedagógica e pode, muitas vezes, contrapô-la. Este fenômeno comumente denominado como currículo oculto é previsível, mas a percepção de seus riscos não é tarefa fácil para os professores iniciantes.  Uma prática que despreza a avaliação diagnóstica das reais necessidades dos alunos, que compreende a definição de um objetivo como uma exigência essencialmente burocrática produz equívocos e são eles a matéria prima para a formação de minha equipe.
Na última semana, os professores confeccionaram um quebra-cabeça com as embalagens de produtos do nosso “mercadinho”. Os comentários entusiasmados após a realização da atividade davam conta de que mesmo as crianças que não conseguiam executá-la em situações anteriores, o fizeram em menos de meio minuto. Por que será? Qual o mistério desta competência repentina? A resposta esta no fato de que nossas crianças estão expostas a propagandas ininterruptas de chocolates, leites fermentados, iogurte e toda sorte de produtos alimentícios. Muito bem, nada disso seria grave não fosse o fato do nosso projeto ter como objetivo principal o combate ao consumismo infantil e, consequentemente a construção de hábitos saudáveis de alimentação. A constatação de que a atividade proposta reforçou uma realidade que queremos transformar, causou um impacto positivo em nossos professores que, conscientes da importância de rever a forma de pensar o planejamento, sentiram-se desafiadas a reverter um desvio de percurso que ainda não era óbvio para a maioria, mas que vai compor o repertório profissional a partir de então.
A ação formativa eficaz para evitar que o currículo oculto suplante os ideais de uma educação pública de qualidade e a qualidade social dos projetos pedagógicos das unidades é através de uma formação continuada que forneça subsídios concretos para a prática pedagógica sem que as intervenções desestimulem o protagonismo e a capacidade criativa dos professores.
Por fim, se um dos problemas que compromete a qualidade do processo de ensino e aprendizagem tem origem na inversão didática dos processos relativos ao planejamento, em especial no que diz respeito ao “para quê e como”, a formação continuada deve percorrer o mesmo caminho. Prevenir, em alguns casos, não é a melhor solução, pois pode camuflar as reais necessidades dos professores.

Em Cartas para Cristina, Paulo Freire afirma que: “o que se espera de quem ensina, falando ou escrevendo, em última análise, testemunhando, é que não se perca na distância enorme entre o que se faz e o que se diz.(..) Os “olhos” com que “revejo” já não são os mesmos “olhos” com que “vi”. Ninguém fala do que passou a não ser na e da perspectiva do que pensa.”
Cibele Araujo Racy Maria - São Paulo 09/08|2015.

2 comentários:

lenyº~ disse...

Como já citado em nossa formação:
"Como professor devo saber que sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo nem ensino. Exercer a minha curiosidade de forma correta é um direito que tenho como gente e a que corresponde o dever de lutar por ele, o direito à curiosidade. Com a curiosidade domesticada posso alcançar a memorização mecânica do perfil deste ou daquele objeto, mas não o aprendizado real ou o conhecimento cabal do objeto." Paulo Freire. Pedagogia da Autonomia. p.85

É através dos "erros" que encontramos os pontos a melhorar em nossa prática.

Emei Guia Lopes disse...

É isso mesmo, querida Leni!
É muito bom inundarmos de conhecimento as nossas relações!
Beijos