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segunda-feira, 8 de junho de 2015

O Mito - O que pode e o que não pode na Educação Infantil

A cada dia somam-se novas exigências aos profissionais que atuam na Educação Infantil posto que é impossível conviver no ambiente escolar com crianças de quatro e cinco anos, sem lhes reconhecer as competências e analisar, à luz as pedagogias de Paulo Freire, de que forma a infância esta sendo vivida, o que povoa o universo infantil no século XXI e como promover a transformação das relações e estruturas de poder no contexto escolar.  Não é tarefa simples mobilizar gestores, coordenadores pedagógicos e professores para abrirem mão de seus pretensos poderes nas relações unilaterais tão bem estabelecidas nas práticas pedagógicas e administrativas das escolas. Ao falar sobre o processo de conscientização, tal como Freire o compreendia, significa reconhecer a necessidade de darmos  voz àqueles dos quais exigimos o silêncio e, em contrapartida, exercitar a escuta atenta daqueles que foram levados a pensar que é possível ensinar sem aprender ou que reduzem a importância de seu papel social quando, em seus discursos, ainda persiste a ideia de que nasceram para “dar aula”. Considerando que nossas crianças têm acesso a uma quantidade significativa de informações e que na mesma medida os adultos têm cada vez menos tempo para conversar sobre esta sobrecarga de realidade, muitas vezes imposta de forma distorcida, surge ou deveria surgir uma nova escola, como um  ambiente laico, reflexivo, libertador e transformador que a infância tem como direito garantido por lei. Assim como Freire, acredito que a escola e seus atores devam se apropriar do mundo em que vivem, assumindo o compromisso histórico de transformar a realidade e não terceirizar sua responsabilidade em formar cidadãos conscientes, críticos e atuantes. Hoje, a exigida qualidade social da Educação nos obriga a revisitar a obra de Paulo Freire com mais regularidade.
Para dar respostas as mais diversas e complexas demandas, definimos com um dos pilares do Projeto Político Pedagógico da EME Guia Lopes o protagonismo infantil,  considerando-o como condição mister para o trabalho com projetos na infância. A concepção de educação, de criança e da própria docência é, em si, inovadora porque pouco vivida nos meios educacionais. Digo isso porque é impossível falar sobre a importância do processo de conscientização  das crianças da educação infantil, sem considerarmos os efeitos que a desconstrução de uma educação autoritária e repressora gera no corpo docente quando é convidado a alçar voos cada vez mais ousados.  Uma escola que não garante o protagonismo docente, dificilmente formará cidadãos reflexivos e atuantes. Trata-se, portanto de três níveis de formação, distintos, mas indissociáveis: criança, família e escola.
Desconsiderar que crianças de quatro e cinco anos estão expostas ao mundo antes mesmo de nascer e constroem impressões complexas sobre a realidade em que vivem me parece ser uma grave omissão e um grande equívoco das práticas pedagógicas reproduzidas pela educação básica brasileira.
Um sistema educacional que determina quando, o quê e com quem devemos aprender, sedimenta ainda mais a ideia de que existem dois mundos, duas realidades: uma apropriada para a infância e outra exclusiva para o universo adulto. Nesse sentido é fundamental que a escola se constitua  em um terreno fértil para que todos compartilhem suas opiniões, desejos e necessidades e construam, coletivamente,  novos saberes sobre si e sobre o outro. Para além do discurso, é importante exemplificar como vivemos o protagonismo infantil na rotina escolar da EMEI Guia Lopes por meio do projeto que propõe a discussão sobre a diversidade humana. É comum os profissionais de nossa escola serem questionados sobre a conveniência de filosofarmos com nossas crianças sobre racismo, preconceito e  discriminação. A dúvida mais frequentemente é a suposição de que seria cedo demais para tratarmos dessas e de outras questões com crianças tão pequenas. Este incômodo, revestido de preocupação, vem seguido de uma argumentação também muito comum que determina a idade de seis anos como propícia para este tipo de discussão. Não coincidentemente, o que deve ou não deve compor o universo infantil corresponde ao rito de passagem entre a pré-escola (pré-vida) e o ensino fundamental e num lapso de memória, esquecemos que há pouco tempo os educandos de seis anos eram considerados crianças e permaneciam nas escolas de educação infantil. Esta compreensão de mundo justifica a ideia de que o racismo surge, magicamente,  aos sete anos. É como se a percepção das injustiças sociais só fosse possível aos oito, como se a leitura de mundo  fosse iniciada aos nove, quando se pretende que as crianças das escolas públicas estejam alfabetizadas.  É a mesma visão que acredita que a sexualidade infantil deva ser discutida, apenas, entre os adultos. Paulo Freire já anunciava sobre a importância da “desmitologização” da educação que insiste em compartimentar o ser humano e, consequentemente fragmentar a construção do conhecimento. Poucos sabem que discussões dessa natureza surgem das próprias crianças da educação infantil, quando o professor assume sua própria incompletude e se transforma em um mediador aprendiz nas questões relacionadas à realidade que compartilhamos e à vida que todos vivemos.
A autonomia, a liberdade e o exercício pleno da cidadania são conquistas que a nova escola precisa perseguir como ideal de formação para toda comunidade. A capacidade de pensar sobre os temas mais complexos e polêmicos da atualidade já faz parte da vida de nossas crianças, elas só precisam encontrar um educador que esteja disponível para ouvi-las. Este educador, por sua vez, deverá habitar uma escola que promova uma educação libertadora e humanizada.
Há um movimento desejável e extremamente rico quando tratamos da relação entre a escola e a família. É quando a criança, afetada,  transformada e consciente, assume o papel de agente transformador e leva para casa as discussões que teve durante a rotina escolar. Imediatamente os pais procuram a escola para compreender os caminhos que percorremos com seus filhos. É nesse exato momento que se encerra um ciclo de construção e outro é imediatamente iniciado.

A Escola de Pais é um projeto que pretende atender aos anseios, inquietações e dúvidas das famílias sobre as propostas de trabalho  da escola e amplia a participação dos pais na vida escolar de seus filhos. Ao mesmo tempo em que provocamos algumas reflexões em nossos alunos, marcamos encontros com seus pais para divulgarmos e discutirmos os resultados de nossas intervenções através das falas infantis. Estes momentos de formação são repletos de afetividade e espanto. Os pais ficam perplexos ao descobrir que seus filhos são exímios observadores da realidade e capazes de conversar sobre assuntos que jamais foram foco de conversa no ambiente familiar. Independentemente do conhecimento que esta sendo construído, após a ampliação do repertório de nossas crianças e a discussão com suas famílias, entra no cenário escolar o que chamo de pedagogia consciente em que são somadas as mais diversas competências para, juntos, vislumbrarmos uma nova ordem que será novamente questionada e reformulada.
É preciso que se somem discursos, pedagogias e filosofias com o objetivo único de transformar a educação em um processo de conscientização sem rupturas.
Cibele Araujo Racy Maria
SP 08 de junho de 2015

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