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segunda-feira, 8 de junho de 2015

ESCOLA DE PAIS

“A participação das famílias exige a partilha do poder e o poder exerce-se para que sejam tomadas as decisões nem sempre consensuais ou que, nem sempre, interessam por igual a todas as partes”.
Ramiro Marques


                Justificativa: Uma escola democrática se constrói com sucessivas tentativas de aproximação e a construção de vínculos afetivos entre a comunidade e os diversos atores escolares. Dá-se de forma gradativa e lenta posto que se  trata de um processo de sedução em que múltiplos interesses estão em jogo e encontrar pontos de intersecção não é tarefa fácil.
As resistências ficam ainda mais evidenciadas quando tratamos da educação de crianças de quatro e cinco anos. Ao mesmo tempo em que as famílias reconhecem a importância da inserção de seus filhos em grupos sociais mais amplos, a sensação de perda de seus filhos coloca-as numa posição de desconfiança e cobranças que as escolas não estão preparadas a assumir.
                A legislação nacional reconhece, a partir dos anos 90, a importância da família no contexto escolar e cria, para além da obrigatoriedade, mecanismos para uma participação mais efetiva e afetiva no desenvolvimento das crianças, missão de qualquer instituição educacional. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação ( Lei 9394|96), artigo 1º, 2º, 6º  e 12; o Estatuto da Criança e dos Adolescente (Lei 8069/90), nos artigos 4º e 55; o Plano Nacional de Educação e o Regimento Interno das Unidades Educacionais da Rede Pública de Ensino asseguram o direito e o dever das famílias de participar na construção do Projeto Político Pedagógico da escola que seus filhos frequentam.
                Aqui reside a responsabilidade das escolas públicas em reconhecer que, apesar das disposições legais, cabe a ela considerar a carga emocional que pesa sobre a família quando realiza o segundo parto de seus filhos, como costumo classificar.
                Esta segunda separação é envolta em sentimentos de incertezas e dúvidas, porque diferentemente dos primeiros meses de vida, em que a família tem controle absoluto sobre as necessidades e desejos de seu filho, a escola representa o desconhecido para ambos.
                Podemos agregar aos momentos de instabilidade dessa segunda ruptura, o fato de que as famílias atendidas pela rede pública de ensino, na maioria das vezes, não têm o direito de escolher em qual escola querem matricular seus filhos. A imposição desta ou daquela escola, baseada na proximidade de sua residência contribui para o aumento de tensões e resistências nos primeiros contatos entre os pais e a escola.
                É certo que a administração pública não teria outra forma de garantir vagas as crianças de zero a seis anos, se não a de estabelecer critérios para esse atendimento, mas cabe às escola reconhecer o alicerce frágil em que esta relação é inicialmente construída.
                A cultura escolar autocêntrica, ainda mergulhada em sua própria finitude, desconhece sua comunidade, suas histórias e expectativas e por isso, organiza eventos em que promove sua importância e geralmente, de forma velada, terceiriza a culpa às famílias pelos insucessos que vêm acumulando.
                Este projeto surge pela necessidade de desconstruir práticas, inverter prioridades e personificar as relações pessoais no âmbito escolar e para fora dele.
                É certo que antes de abrir as portas à comunidade escolar é necessário que a equipe de servidores públicos que nela atua,  estabeleça vínculos com a escola o que representa um grande desafio porque a alta rotatividade de professores na rede, inviabiliza esta construção ou a interrompe ano a ano.              
                Desta forma, a “Escola de Pais” ´surge como resultado de um processo iniciado a dez anos e um novo investimento que visa imprimir qualidade as relações entre escola e família através dos membros da equipe gestora.
                Apesar das concepções e práticas que envolvem a criação de uma Escola de Pais  serem práticas constantes da EMEI Guia Lopes, institucionalizá-la foi o primeiro passo para sua incorporação ao Projeto Político Pedagógico da unidade.
                Como gestora e leitora assídua e reflexiva da obra de Paulo Freire, acredito ser oportuno trazer sua concepção de escola  como sendo “um modo de ser” que em muito traduz a minha primeira preocupação ao organizar eventos para as famílias das nossas crianças.      Segundo ele: “Não devemos chamar o povo à escola para receber instruções, postulados, receitas, ameaças, repreensões e punições, mas para participar coletivamente da construção de um saber que vai além do saber de pura experiência feita, que leve em conta as suas necessidades e o torne instrumento de luta, possibilitando-lhe transformar-se em sujeito de sua própria história [...]. A escola deve ser também um centro irradiador da cultura popular, à disposição da comunidade [...] um centro de debate de ideias, soluções, reflexões, onde a organização popular vai sistematizando sua própria experiência. A escola não é só um espaço físico. É um clima de trabalho, uma postura, um modo de ser.”(Freire, 1991, p.16).
                A prática da escuta da comunidade escolar possível pelos encontros promovidos pela escola, foram adicionadas às reuniões burocráticas  e pouco produtivas dos Conselhos de Escola e  Associação de Pais e Mestres.
                 Com objetivos específicos que se diferenciam daqueles presentes nas Reuniões do Conselho de Escola e da Associação de Pais e Mestres, abre-se um espaço para escuta dos pais, para a revelação de talentos da comunidade e cria-se a oportunidade para o protagonismo familiar no que lhe é mais caro: a formação de seus filhos.

OBJETIVO Geral: Transformar a escola num espaço democrático que acolha diversos atores e a pluralidade de suas ideias.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS:
- detectar as prioridades das famílias em relação à educação de seus filhos
- formar os pais nos assuntos de seu interesse e àqueles relacionados à proposta pedagógica da unidade.
- dialogar acerca de suas necessidades e anseios
- criar oportunidades para o protagonismo familiar no âmbito escolar
- estreitar os laços afetivos entre os pais e a escola
- elevar a auto-estima dos pais e das crianças
- estabelecer parceria mais efetiva com os membros das famílias que tiverem oportunidade de exercer suas habilidades para enriquecer os projetos didáticos durante o ano letivo.
- organizar comissões permanentes para gerenciar ações junto à comunidade e o entorno escolar
- ampliar o repertório das famílias sobre os processos de ensino-aprendizagem e a construção do conhecimento
- divulgar e refletir sobre o processo de formação dos professores, compartilhando os saberes construídos coletivamente.
- estimular sua participação crítica na elaboração do Projeto Político Pedagógico e na Avaliação dos Indicadores de Qualidade da Educação Infantil
- estabelecer parcerias com profissionais de outras áreas do conhecimento que promovam o debate de assuntos de interesse da comunidade.
- dinamizar a participação das famílias em eventos, antes, destinados aos professores e equipes escolares ( Reuniões Pedagógicas).

Metodologia
A Escola de Pais acontece por meio de encontros ou atividades abertas às famílias e funcionários da escola e podem ser classificados em cinco categorias.
Categoria 1 – Realização de encontros após o horário de funcionamento da escola em que o tema de interesse para o diálogo e reflexão é definido pelos pais participantes. Nesses encontros, a gestão prepara um material que, ao mesmo tempo, divulga conhecimentos produzidos sobre o assunto e incentiva a participação dos presentes através de desafios. Ao final do encontro, há sempre uma atividade planejada que se inicia no coletivo e segue como “lição de casa” para os pais. O objetivo destas atividades é sempre o de levar a discussão para casa e possibilitar a participação de outros membros da família, inclusive a criança.
Categoria 2 – Realização de encontros após o horário de funcionamento da escola em que a escola define o tema a ser abordado de acordo com a necessidade do projeto didático em andamento.  A escola desenvolve  dois projetos didáticos permanentes, a saber: Diversidade biológica e cultural no período das 7h00 às 11h00 e 15h00 às 19h00 e o Projeto de Onde vem?  Para Onde Vai? - Sustentabilidade e Consumismo no período da 11h00 às 15h00. Alguns dos encontros são desencadeadores de discussões pertinentes aos conhecimentos que as crianças estão construindo com seus professores. O objetivo destes encontros é ampliar o repertório dos pais sobre os temas e incentivá-los à pesquisa para compartilhar com seus filhos.
Categoria 3 – Realização de palestras com convidados especiais que tratam das temáticas definidas pelos pais ou pela escola.
Categoria 4 – Promove a participação dos pais nas rotinas diárias da escola, como protagonistas de ações educativas. A presença de pais em momentos de brincadeiras, dinâmicas, refeições em que assumem a posição de comando de uma turma de crianças. Durante as reuniões descobrimos talentos, entre os pais,  que são introduzidos nas rotinas das crianças através de oficinas. Aulas de dança e de consciência corporal já foram iniciadas esse ano.
Categoria 5 – Promoção de Eventos, festas, dinâmicas, gincanas, pesquisas e vivências previstas em calendário escolar ou no cronograma de ações coletivas dos projetos didáticos definidas durante o ano.
Categoria 6 – Comunicação Virtual Permanente – Portfólios Virtuais são diariamente atualizados contendo fotos e textos para que as famílias acompanhem as rotinas de seus filhos e possam conversar sobre o que vivem na escola. Através do Blog, é disponibilizada toda a documentação pedagógica da escola, possibilitando a consulta e a cobrança de ações não realizadas por parte da equipe escolar. Além disso, mantemos uma comunicação virtual através das redes sociais para esclarecimento de dúvidas.

RESULTADOS ESPERADOS
- Transformar a Escola em um espaço verdadeiramente democrático através da adoção de dinâmicas que favoreçam os processos coletivos e participativos de decisão.

- democratização das relações que se desenvolvem na escola, contribuindo para o aperfeiçoamento administrativo-pedagógico. 
Cibele Araujo Racy Maria
SP 08 de junho de 2015

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