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domingo, 22 de fevereiro de 2015

PROPOSTA CURRICULAR - 2015

Proposta Curricular

“ A Afetividade é o conjunto de processos psíquicos exteriorizados através das emoções”
Henry Wallon

 "A emoção é altamente orgânica, altera a respiração, os batimentos cardíacos e até o tônus muscular, tem momentos de tensão e distensão que ajudam o ser humano a se conhecer"
Heloisa Dantas


                                       A infância é o tempo de brincar e durante as experiências lúdicas surgem motivações, interesses e inúmeras situações produtivas de aprendizagem, através da interação com o outro, com os brinquedos e brincadeiras, que possibilitam pesquisar, problematizar, criar, construir e favorecer o desenvolvimento das habilidades e competências individuais e coletivas.
                                       À luz desta concepção de aprendizagem, a Comunidade Escolar adotou como meta a criação e implantação de espaços diversos ao da sala de aula, campo livre e dirigido, que tornassem possível a vivência contínua de momentos educativos e prazerosos e durante os quais a criança pudesse expressar-se como tal, significando o mundo a sua maneira e exercitando a cidadania a partir dos seus saberes e fazeres.
                                       Desta proposta, do estudo e de parcerias com a comunidade e profissionais de outras áreas do conhecimento, surgiram espaços cuja utilização esta prevista como rotina na organização dos tempos escolares, assumindo a função de eixos norteadores da prática pedagógica.  O trabalho prevê que semanalmente esteja contemplado, na linha de tempo de cada turma, um horário específico para visita e utilização dos referidos espaços, sendo alternados momentos de atividades dirigidas advindas do tema que esta sendo abordado e momentos de exploração espontânea.
                                       A brinquedoteca e o parque aparecem sempre como exceção a esta conduta, pois são concebidos como um ambiente para a interação livre entre as crianças e um momento de observação e registro do processo de desenvolvimento de cada criança pelos professores, agentes escolares e auxiliares técnicos de educação.
                                       A utilização dos espaços e a fidelidade ao binômio cuidar e educar motivou e tornou possível a organização de um currículo baseado na busca e manutenção da saúde do indivíduo como um todo, assim, há um ciclo no qual se intercruzam conceitos, procedimentos e atitudes ligados à preservação do bem estar individual e social.
                                       Desta forma, as áreas do conhecimento são como produtos, resultados das inúmeras vivências oferecidas pela escola nos diferentes tempos e espaços. Na EMEI Guia Lopes, aprende-se matemática na cozinha experimental, nos jogos e atividades da ludoteca, na brinquedoteca, na sala de leitura, no espaço de artes, no parque. Os registros escritos de letras e números são concebidos como resultado final de uma experiência significativa e não como tendo um fim em si mesmo. Não se aprende a ler e escrever senão lendo e escrevendo em situações em que a haja a necessidade da leitura e da escrita. Não se aprende matemática e seus conceitos senão pela necessidade na resolução de uma situação-problema.
                                       Para estabelecer os eixos do trabalho pedagógico, recorremos a outras áreas do conhecimento que pudessem deixar claras nossas intenções, quais sejam a de formar cidadãos do mundo e para um mundo globalizado, capazes de atitudes diante dos desafios, de terem iniciativa e criatividade para solucionar problemas e dificuldades, que valorizem a vida, o respeito à diversidade e que sejam mais tolerantes. Enfim, um ser humano ciente de seus direitos e deveres.
                                       As experiências contidas no Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil foram organizadas em quatro eixos norteadores do trabalho pedagógico, conferindo-lhes objetivos gerais, expectativas de aprendizagens, valores e espaços diferenciados para vivências infantis significativas que se encontram detalhadas no Quadro de Referência (antigo Planejamento Anual), garantindo-lhes a transversalidade, contemplando assim os quatro pilares de uma educação para o século XIX. (Educação, um tesouro a descobrir – relatório elaborado para a UNESCO pela Comissão Internacional sobre Educação para o século XIX -  coordenada por Jacques Delors):
Além disso, definimos para alguns dos espaços existentes no âmbito escolar, um rol de atividades permanentes que são realizadas com o envolvimento de todas as equipes escolares.
A cada um dos espaços, correspondem atividades de rotina que conferem unidade aos trabalhos pedagógicos de toda a escola e contribuem para a manifestação e construção de diferentes saberes, incrementando a troca de experiências entre professores, crianças e comunidade, além de garantir a ludicidade necessária a todos os projetos e/ou temas de interesse que surjam durante o ano.
                Inspiradas pela proposta walloniana, acreditamos que elementos como afetividade, emoções, movimento, espaço físico e os conteúdos se encontram no mesmo plano. Desta forma reiteramos que os conteúdos são meios para garantirmos a formação de cidadãos críticos e atuantes.
                Neste sentido, como integrantes de todas as ações desencadeadas pela escola, surgem as figuras de afeto que nos auxiliam a estreitar os vínculos com nossas crianças, aproximando-nos ainda mais do universo infantil, seus desejos e necessidades: A família de espantalhos. Portanto, as figuras de afeto surgem para humanizar o currículo escolar e trazer para o primeiro plano as emoções envolvidas nos diferentes espaços de convivência durante os processos de ensino – aprendizagem.
                Atendendo às Diretrizes Nacionais para a Educação Infantil, às Orientações Curriculares para a Educação Infantil, os pilares para uma Educação do Século XXI e os Direitos e Deveres da Criança e do Adolescente, surge o projeto “Figuras de afeto, um sonho, uma realidade” tendo como base as nossas observações sobre as relações interpessoais no âmbito escolar, em especial àquela construída entre professores e alunos e em que medida estas relações interferiam positiva ou negativamente nos processos de aprendizagem das crianças.                 
 Confirmando a teoria de que a afetividade e a cognição são processos indissociáveis e o reconhecimento de que a diversidade humana diz respeito, também à qualidade que imprimimos em nossas relações, avaliamos como necessário  ampliar o círculo de convivência das crianças com outros profissionais da escola. Descontruir o sentimento de posse sobre alunos e compartilhar a responsabilidade da formação das crianças com todos da escola, da família e da comunidade exigiria a definição de um ponto de intersecção entre os interesses infantis, os objetivos da escola e as prioridades das famílias.
                Esta educação compartilhada prevê também aproximar as crianças da figura do diretor escolar, do Assistente de Diretor e da Coordenação Pedagógica, descontruindo o mito que envolve  as relações de poder que ali se estabelecem ou habitam o imaginário infantil.  A criação das figuras de afeto possibilitou a todos conversar, trocar ideias em torno de um interesse comum, definido pelos projetos permanentes da EMEI Guia Lopes. Outro fator que justifica a criação das figuras de afeto, foi considerarmos uma característica observável na infância que é a facilidade de reconhecer e verbalizar defeitos e qualidades do outro e não de si mesmas, afinal nos conhecemos através dessa relação. É comum as crianças serem capazes de contar o que o amigo fez ou deixou de fazer, mesmo que elas próprias tenham participado de toda a ação. Neste sentido, ter um terceiro elemento nesta relação, possibilitou- nos conversar sobre diversos temas, uma vez que não falamos, inicialmente, de nós mesmos.  A linguagem utilizada para garantir o envolvimento de todos não poderia ser outra senão aquela impregnada de fantasia que as figuras de afeto representam.
Ao optar por trabalhar com projetos, a escola e seus professores dispensaram a prática de comemorar algumas datas que são comuns à maioria das escolas privadas e públicas. Desta forma, personagens como o Papai Noel e o Coelho da Páscoa, que classifico como figuras de afeto, deixaram de fazer parte do universo escolar. Reconhecendo a importância desses facilitadores do trabalho docente, era preciso criar uma figura que fizesse sentido no contexto da EMEI Guia Lopes, que imprimisse a laicidade aos projetos permanentes da escola e que, principalmente não estivesse associada ao consumismo. Nasce, em 2008, o espantalho Tetelo para cuidar da plantação da horta.
Hoje temos vinte e duas figuras de afeto, com papéis definidos e que transitam pela escola, inseridos nos.
Constatando o número considerável de crianças que traziam para a escola paninhos, chupetas, brinquedos e a sensação de segurança que estes objetos de transferência eram capazes de proporcionar, investi na criação de um objeto que possibilitasse igual sensação e que permanecesse na escola.  Até então, tinha a pretensão de criar e estreitar vínculos afetivos entre as crianças, suas famílias e a escola.
Em 2008 surge o primeiro espantalho da nossa horta. O encantamento tomou conta desta história quando Tetelo, nosso espantalho, foi retirado para ganhar um belo banho de loja. A reação das crianças me levou a considerar que tinha achado um tesouro. Questionadas pelo sumiço, a grande maioria delas decidiu que ele estava se sentindo muito só. Dias depois surge Tetelo, acompanhado de Tetela que, por insistência infantil, era muito mais do que uma simples amiga.
A partir desta reação infantil e do poder de mobilização conferido ao “objeto”, esta denominação não lhe cabia mais. A humanização ou personificação de objetos é uma das características da infância e foi preciso, apenas revesti-la de intencionalidades pedagógicas.
As crianças não tinham outro interesse que não fosse o de cuidar de Tetelo e sua amada. Era inadmissível para elas, por exemplo, deixar o casal de espantalhos na horta em dias de chuva.
Foi assim, ouvindo as crianças, que as figuras de afeto ganharam papel de destaque nas práticas pedagógicas da EMEI Guia Lopes e, desde então nos auxiliam a alcançar os objetivos propostos pelo Projeto Político Pedagógico.
A existência dessas personagens possibilitou a inversão de papéis dentro da escola. As crianças passaram de receptoras de cuidados e educação à responsáveis por cuidar e educar de nossas figuras de afeto.
Conclui que era preciso institucionalizar a importância da afetividade na educação infantil e criar um ambiente propício para que os jogos simbólicos não fossem prerrogativa, apenas das crianças. O primeiro passo foi formar professores e funcionários para estarem atentos às falas de nossas crianças porque seriam elas a definir os rumos dos projetos didáticos. As figuras de afeto seriam, a partir daquele momento, a estratégia para desenvolvermos as habilidades sociais de nossas crianças e porque não dizer, dos adultos também.
Não foi difícil surgir a ideia de que essas figuras ganhavam vida à noite, quando a escola ficava vazia. Esta fantasia foi sendo ampliada quando a fada, pintada na parede da brinquedoteca, apareceu para conversar com as crianças ou a boneca Emília passou a morar na sala de leitura e acordou de um longo sono, usando seu pó de pirlimpimpim, para ensinar nossas crianças a cuidarem dos livros da escola. O que dizer, então do Kiriku que saiu das telas do cinema para brincar de esconde-esconde em nosso parque?
Os assuntos relativos à história de vida dessas figuras de afeto estão a serviço da concretização das ideias infantis. Nossas crianças já perceberam que sobre este assunto não há ninguém que saiba mais do que elas. Quando nos lançam perguntas sobre suas hipóteses, estão na realidade nos desafiando com sua criatividade, com sua imaginação. É um jogo onde o poder de criação não esta nas mãos dos adultos, mas com elas, as crianças.
Fases do Projeto:
Anualmente, cumprimos algumas etapas para garantir o envolvimento dos novos professores e crianças com nossas figuras de afeto.
Fase I – Resgate da história de vida das figuras de afeto, através de vídeos criados durante os anos anteriores.
Fase II – Preparativos para a chegada das figuras de afeto – normalmente organizamos uma festa com todos os itens definidos como necessários pelas crianças.
Fase III – A convivência – A cada dia, uma turma de crianças fica responsável por cuidar e ensinar nossas figuras de afeto, fazendo-as participar da rotina escolar.
Fase IV – Introdução do tema inicial do projeto didático do ano, definido pela equipe docente e gestão no mês de dezembro do ano anterior.
Fase V – As correspondências – os temas do projeto são apresentados às crianças, por meio de cartas escritas, durante a noite, pelas figuras de afeto. Estas cartas propõem desafios sobre o tema com o objetivo de fazermos uma sondagem do repertório infantil. São essas cartas e as respostas a elas que alimentam nossos projetos.
Fase VI – As famílias - promoção de eventos temáticos, palestras e pesquisas.
Após sete anos criando e convivendo com as figuras de afeto coube-nos registrar o potencial de impacto que esta estratégia teve no desenvolvimento de nossas crianças. E ainda, se foi possível produzir conhecimentos e avanços no processo de socialização através desses símbolos.
 Os resultados são perceptíveis e inquestionáveis. Foi possível constatar, por exemplo, que as normas de convivência (combinados) deixaram de ser uma lista opressora, difícil de cumprir e passaram a ser uma questão que envolvia a permanência das figuras de afeto no cenário escolar. Hoje, as crianças cuidam dos livros porque rasga-los fazem o pó de “pirlimpimpim” diminuir e, sem ele, a boneca Emília não tem forças para ganhar vida. Os brinquedos da brinquedoteca ganham vida à noite, quando a fada chega para visita-los. Que carrinho poderia passear pela escola sem rodas? Como o time de futebol montado pelas bonecas poderia jogar se estivessem faltando pernas? O que dizer, então da salada de alface e beterraba, especialidade culinária dos super heróis que todos provam após horas de brincadeira, se eles não tivessem braços para fazer a colheita em nossa horta? Sim, é neste clima que construímos os combinados de cada ambiente de convivência.
Um projeto que tinha como público alvo as crianças, contagiou a todos, a tal ponto de ser catalizador das emoções e sentimentos dos adultos.
Pudemos perceber que as figuras de afeto foram capazes de seduzir nossos alunos e leva-los à pesquisa e a construção de conhecimentos com uma significação nunca vista em nossa escola. Aguçamos a curiosidade das famílias e percebemos que as crianças levavam para casa, diariamente, os conhecimentos construídos na escola.
Apropriando-me da essência do pensamento de Claudio João Paulo Saltini é inegável a associação existente entre afetividade e inteligência, afetividade e aprendizagem.
Se o objetivo inicial era o de trabalhar a afetividade infantil e criar personagens por meio das quais as crianças pudessem demonstrar seus sentimentos e necessidades além das quatro paredes das salas de aula, nossas expectativas foram superadas. As figuras de afeto nos auxiliam a manter unidade em nossos projetos.
Tetelo, Tetela, Sofia, Kauê, Azizi Abayomi, Dayo e Henrique e, este ano, as quinze crianças da Fundação Nelson Mandela que chegarão à escola, nos possibilitam trabalhar a sexualidade, as relações étnico-raciais, sustentabilidade, consumismo, o papel dos homens na educação de seus filhos, os estereótipos relacionados ao gênero, as diferentes configurações familiares e outros projetos que ousamos sonhar, levando-nos a uma reflexão diária sobre as relações sócio  afetivas que envolvem as experiências infantis nos ambientes escolares e sua íntima relação com os processos de aprendizagem.
As crianças da escola, hoje, contam com o acolhimento, auxílio e atenção de todos os funcionários da escola, inclusive os das empresas terceirizadas de merenda e limpeza, porque compramos a ideia e falamos a mesma língua: a do afeto.
Hoje, continuamos recebendo a visita de nossos ex-alunos que procuram informações sobre Tetelo e Tetela. O que nos comove,  causa alegria e espanto porque são crianças com doze, treze e quatorze anos que utilizam as figuras de afeto para matar a saudade da escola.
                Através do afeto que as figuras personificam, contamos nossas próprias histórias, revelamos um pouco do que somos e a história da humanidade. O príncipe africano Azizi Abayomi, sua esposa Sofia e seus filhos Dayo e Henrique, a fada, a boneca Emília entre outras, enchem de magia e encantamento os ambientes da escola e nos auxiliam a tratar de temas que, nós adultos, ainda resistimos em colocar na roda. Esta família real nos instiga a refletirmos, todos, sobre o que pensamos de nós mesmos e dos outros e é, escancarando de vez o que nos é muito íntimo, que nos tornarmos seres humanos melhores.
                Hoje, quando as figuras saem de cena, a preocupação é tão intensa quanto a que assistimos há sete anos, portanto mesmo que fosse a vontade dos adultos da escola, não seria possível por um ponto final nessa história. Seria o mesmo que tolher nossos afetos, emoções e sentimentos.
                A equipe da EMEI Guia Lopes abraçou a docência como instrumento de mudança social. Optarmos por uma educação mais humanista nos levou a descobrir que direitos, todos temos, mas a grande e libertadora brincadeira é vivê-los intensamente desde a infância.
               


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