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domingo, 4 de maio de 2014

Apartheid brasileiro, uma escola para brancos e outra para negros


Há um mito no ensino público que faz com que poucos profissionais dedicados à educação infantil se sintam à vontade para discutir a alfabetização, mas o fato é que as escolas que definem objetivos claros em relação à escrita e à leitura com crianças de quatro e cinco anos são julgadas como impróprias como se esta opção fosse o mesmo que lhes arrancar o melhor da  infância.
Fica mais  difícil ainda compreender  como as práticas pedagógicas de instituições de ensino privada e pública tomam rumos tão distintos estando apoiadas, quase sempre, nas mesmas referências teóricas.
Talvez a suposta incoerência administrativa ou a descontinuidade das políticas públicas possam nos ajudar a compreender melhor a que tipo de discriminação nossas crianças estão expostas.
Estamos sim, perpetuando desigualdades desde a primeira infância. Estamos nos omitindo diante do fato de que mais de cinquenta por cento das crianças matriculadas em escolas públicas são negras e é a elas que negamos a igualdade de direitos.
O fato é facilmente comprovado quando nos debruçamos sobre as expectativas de aprendizagem da rede púbica em relação aos processos de construção da escrita.
Se somarmos os anos de permanência na escola para este fim, as crianças da rede pública, de maioria negra, precisam de até cinco anos para conquistar o que as crianças da rede privada, de maioria branca, aprendem no primeiro ou segundo ano de vida escolar.
A existência de inúmeros artigos que discutem o abismo entre estas duas realidades, não garante a compreensão exata do que quero dividir por meio desta proposta de reflexão.
Apesar de algumas certezas, gostaria de provocar um novo olhar que não camuflasse o que de fato permanece oculto quando falamos de desigualdades.
Penso que adiar ou mesmo negar qualquer aprendizagem às crianças das escolas públicas pode incitar várias interpretações, entre elas a ideia de inferioridade intelectual das crianças das escolas públicas ou mesmo a incompetência de seus professores., mas o que esta mais intenso para mim é que estas políticas educacionais podem ilustrar a existência do que entendo como racismo  institucional , velado por garantir o acesso à educação desde que com níveis bem distintos de qualidade.
Quando sou instigada a refletir de que forma a educação popular  perpetua o racismo e toda as formas de preconceitos e tabus, tenho a tendência de analisar as práticas pedagógicas circunscritas ao espaço físico em que atuo, mas decidi tentar ampliar meu campo de observação. Vou além quando não me esqueço de Paulo Freire e a sua incansável e produtiva  dedicação à alfabetização de adultos. Não seria o reconhecimento de que a escola, desde a infância, teria perdido o rumo de sua história e seria necessário recuperar o tempo perdido àqueles cujo direito foi negado? Não seria, em última análise , o reconhecimento de que um adulto analfabeto foi uma criança analfabeta e que há responsáveis por este quadro tão perverso que aflige as camadas mais pobres e negras da população?
Por mais discursos que tenha ouvido sobre a defesa do brincar nas instituições públicas de ensino, sei que em muitos casos a brincadeira esta desvinculada de qualquer intencionalidade pedagógica, transformando o professor em um “tomador de conta” de crianças de quatro e cinco anos nos horários de “parque”.   Acho que chegou  a hora de brincarmos de ler e escrever como forma de construir a tão alardeada cidadania.
Falando ainda sobre a incoerência administrativa, quero citar um exemplo clássico que vivencio há alguns anos sobre a atuação dos Conselhos de Escola de cujo caráter deliberativo, pouco sobrou. Fala-se muito em uma gestão democrática em que se deve ouvir a comunidade, no entanto quando constatamos que o desejo dos pais é de que seus filhos aprendam a ler e a escrever, muitas vezes pela dificuldade que sentem por não dominarem os mesmos processos, tratamos de desenrolar o discurso de que o mais importante é o brincar, que registros não importam ou ainda que a educação infantil não pode ser uma escola que vise à preparação para o ensino fundamental, como de fato não deve ser. A Educação Infantil como parte fundamental da educação básica deve preparar suas crianças para a vida, mas que vida será esta em que se esta sempre em desvantagem?
É interessante estabelecer uma relação entre o sistema de cotas e o reconhecimento  do poder público sobre a  ineficiência de suas políticas educacionais voltadas aos mais pobres e negros . Apesar da incorporação legal da Educação Infantil ao Ensino Básico obrigatório é comum e talvez desejável que, na prática, seja mantido um desfiladeiro impossível de se transpor entre os primeiros anos de vida escolar, comumente reconhecido como pré-escola (a não escola)  e àquela considerada fundamental.
Hoje mesmo, após terminar uma sessão de leitura compartilhada (professor e alunos lendo o mesmo livro, ao mesmo tempo)  uma criança chegou bem perto de sua professora e lhe pediu: Você me ensina a ler?.
Interpreto esta atitude como um sinal de que a escuta das falas infantis não pode ser acompanhada de um filtro adulto sobre o que seja ou não direito da infância. Que escola seria esta em que uma criança de quatro anos precisa pedir para aprender? Pior ainda pensar que há escolas que não têm ouvidos e não investem nos desejos infantis.
Há os que dirão que pais ansiosos incutem nas crianças o desejo precoce sobre a aquisição da leitura e da escrita, mas o que dizer de outros adultos que querem  nos convencer de que ambas as competências  não são importantes na educação infantil? Talvez a rede precise de uma fala consistente que lhe tire de sua zona de conforto ou, pelo menos, desperte um olhar crítico em seus educadores que os faça enxergar  o quanto o ideal de educação pode ser manipulado por várias e consecutivas administrações.
É bem verdade que há avanços perceptíveis em algumas escolas públicas de educação infantil visto os projetos dedicados à leitura sistemática de histórias, mas em relação ao avanço das hipóteses de escrita o investimento  fica restrito a poucas.
Fico imaginando o que fazem as escolas que se quer tentam compreender os desejos de sua comunidade e de suas crianças. A desconsideração de suas necessidades e desejos é o caminho mais curto para perpetuar as injustiças sociais.
A EMEI Guia Lopes entende a urgência e a ansiedade dos pais de nossa comunidade e valida seus desejos em sua Proposta Pedagógica.  Compreendemos e não abrimos mão do nosso papel de transformar a realidade de nossas crianças.
Mantemos, além da rotina diária que prevê a utilização da escrita, um dia dedicado única e exclusivamente ao registro escrito, assim como garantimos o brincar diário e livre (para as crianças) e o consideramos como sendo o momento mais oportuno para o trabalho docente.
O melhor da infância é sua curiosidade e a inquietante disposição em compreender um dos maiores mistérios da vida: a escrita e a leitura feitas pelo mundo adulto.
O melhor do magistério é descobrir como pode ser divertido e prazeroso construir as primeiras palavras com crianças de quatro anos.
É bem verdade que este ano o Kit de material para a Educação Infantil recebeu um item a mais: um caderno pautado. Seria este um sinal de alforria para educadores e  crianças? Seria uma  tentativa de retirar da clandestinidade os processos de alfabetização e letramento, muitas vezes equivocados,  que ocorrem na educação infantil e investir  na formação de seus professores para o grande desafio¿ Seria um indicativo que  a alteração feita na denominação do  cargo de Professor de Educação Infantil  para Professor de Educação Infantil e Ensino Fundamental , deixará de ser apenas uma nomenclatura  e garantirá formação idêntica ao quadro docente,  independentemente do local de sua atuação? Quero acreditar que sim! Lemos e registramos nossas impressões sobre o mundo mesmo antes de nascer, ninguém pode nos tirar o direito de continuar registrando.
Finalizo minha reflexão de hoje com um questionamento que me inquieta e me faz agir. Se sabemos a quem interessa manter a distância entre as oportunidades oferecidas às crianças de escolas públicas e  privadas, seria possível relacioná-la como mais uma evidência de que democracia racial no Brasil, é um mito? E pior....que somos nós, educadores, a perpetuá-la como tal?
Cibele Racy Maria


Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bom! Pura realidade.