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domingo, 11 de maio de 2014

A imprevisibilidade do trabalho com projetos didáticos

“Nossa, estou perdida! Estava acostumada a receber apostilas prontas, com atividades já definidas. Construir os caminhos que devo seguir com um grupo de crianças esta sendo muito difícil para mim”.
Esta foi a colocação sincera de uma professora enquanto conversávamos sobre a condução de um projeto que terá o ponto de partida definido pelas crianças, após a leitura do livro” O Mundinho”.
Adotar uma nova filosofia de trabalho requer um esforço extraordinário de todos os envolvidos e a sensação de “perder o chão” causa ansiedades, medos, frustrações e por que não falar da enorme realização quando conseguimos encontrar um novo jeito de exercer a docência? Diferentemente dos índices de livros didáticos ou apostilas preparadas por organizações que tentam massificar o trabalho pedagógico, a imprevisibilidade de um  projeto é que lhe garante a riqueza na construção de conhecimentos.
Este ano, iniciamos o projeto sobre diversidade biológica e cultural – “O Mundo de Azizi Abayomi e Sofia” – compartilhando ideias sobre a vida de Nelson Mandela.
Uma de nossas professoras construiu um material muito rico sobre os principais fatos da vida de Madiba. Até um determinado dia, a equipe docente acreditava que isto daria conta de “ensinar” a importância de um grande homem para as crianças. A gestão pediu aos professores que enviassem as falas infantis sobre Nelson Mandela para análise dos resultados do trabalho. Veio a primeira surpresa que pode ilustrar muito bem o que queremos dizer quando afirmamos que é preciso uma escuta atenta ao que dizem nossas crianças. São elas que nos obrigam a avaliar e dar novos rumos as nossas práticas. A grande maioria dos registros fazia alusão a três aspectos de sua história: a prisão, a morte e a “luta”.
Foi um grande choque quando se constatou que os resultados não foram os esperados.
Aprendemos que uma ação afirmativa pode e deve gerar outras tantas e que não há tecnologia que substitua a figura do professor.
A superficialidade com que estamos acostumados a tratar os processos de construção do aprender a fazer, a conviver,  a conhecer e a ser  foi devidamente comprovada e era necessário intervir.
Iniciamos então um trabalho que pudesse ressaltar a importância de Nelson Mandela para o mundo e, neste momento, vivemos este processo.
Conversando com um grupo de crianças durante um dos meus passeios, a discussão era sobre o que teria inspirado Nelson Mandela a lutar contra o Apartheid. O que de fato ele queria? Na semana passada, conversa vai, conversa vem, percebi que a argumentação das crianças era a de que somos todos iguais. Negros e brancos, todos iguais e juntos.
Pronto, mais um momento para a intervenção. Sabe aquele planejamento que dava como encerrado o assunto? Teve que ser repensado! É bom compartilhar que desde a primeira semana de março estamos dando o assunto por encerrado...
Na tentativa adulta de argumentação contra o Apartheid a palavra “Igualdade” foi usada insistentemente. Será que a utilizamos como deveríamos?
Mais um momento de reflexão e  replanejamento.....
Esta suposta imprevisibilidade que nos obriga a pensar e repensar causa alguns desconfortos para quem vive pela primeira vez a experiência de trabalhar com projetos. Digo suposta, porque a habilidade de prever resultados se manifesta em diferentes níveis em cada um dos participantes posto que depende do conhecimento que se tem sobre o tema tratado. A antecipação de possíveis desvios e desafios é um objetivo que perseguimos insistentemente.
Uma pedagogia que prevê a autonomia, o protagonismo infantil e a coerência tem um preço: muito estudo, muita pesquisa e uma enorme disponibilidade em aprender a ouvir, ver e sentir.
Nos momentos de formação continuada com nossos professores são muitas as revelações que chegam a chocar seus participantes diante das avaliações constantes que fazemos. Aquela máxima de que o processo de avaliação é contínuo não se aplica somente às crianças, deve, sim,  ser aplicado a tudo o que acontece na escola. 
É assim que vivemos a Lei 10.639|03 em nossa escola, um dia de cada vez.
Por mais conhecimentos que tenhamos acumulado durante os últimos quatro anos, sentimos um enorme prazer em proporcionar aos novos integrantes de nossa equipe a oportunidade de aprender, vivendo.

Enquanto isto....as crianças africanas que vieram com Azizi Abayomi aguardam o momento certo para entrar em cena.

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