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sábado, 5 de abril de 2014

Projeto, um bicho de quantas cabeças?

Como costumo fazer, os textos que publico carecem de referências bibliográficas porque tudo que li, agora, faz parte de mim e não pertence somente aos autores e teóricos que me inspiraram.
Um projeto só é projeto se for autoral, certo? Um texto, também!
Sou uma boa fazedora de educação e é na prática que reside o meu pouco conhecimento sobre o educar.
O programa ‘Mais Educação” idealizado pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, traz um gigantesco desafio a todos os educadores da rede que transcende as discussões sobre boletim, notas, ciclos e tudo que tem merecido destaque. Trabalhar com Projetos Didáticos é a  proposta revolucionária que o programa prevê.
Há um número significativo  de livros que tentam abordar a  pedagogia  de projetos e há, ainda alguns que nos oferecem projetos prontos. Foi com grande espanto que conheci o material publicado pelo MEC - UNESCO, sobre História e Cultura Africana e Afro-brasileira  na Educação Infantil, mas avalio-o, neste momento,  como necessário.
O que proponho é uma reflexão inicial sobre os motivos que levaram seus autores a inserir projetos prontos no final da publicação.
O que diferencia um projeto de uma sequência didática? Há diferenças entre estas duas formas de organização do conhecimento?
Sim ,há uma grande diferença !
Na concepção que o trio gestor adotou  para desenvolver suas  práticas na EMEI Guia Lopes, o que os diferencia pode ser explicado, facilmente. 
A sequência didática é a organização do conhecimento científico  e um projeto é, em última análise, o que fazemos com os conhecimentos que adquirimos. Ele tem e deve ter um caráter social e a pretensão sincera de transformar a realidade em que vivemos.
Entendo que ambos se constituem em processos de construção do conhecimento, mas classifico o primeiro como um movimento interno e pessoal do professor em que ele busca o que ainda não sabe e, ao segundo, como sendo uma explosão, o compartilhamento de sensações, emoções e crenças. É quando o conhecimento se constrói  de forma particular, mas coletivamente.
Este desafio que esta explícito no Programa “Mais Educação” merece uma  atenção especial dos programas de formação da Secretaria Municipal de Educação, mas o que vejo é a profusão de cursos de mestrado e doutorado que não auxiliam o professor em sua maior aspiração e necessidade: a docência, a atuação em  sala de aula ou espaços de aprendizagem.
O entendimento que a gestão pedagógica tem sobre o que seja um projeto didático tem dado certo por aqui, talvez porque  não fique presa  aos índices dos livros que tratam do assunto. 
Se para alguns a escolha do tema é apontada como uma das primeiras ações a ser desencadeada pela escola, gostaria de desconstruir tudo o que envolve esta opção inicial, em especial na Educação Infantil.
 Cabe um relato interessante que vivi em uma das últimas reuniões de formação que participei. A discussão era exatamente esta.
“- em nossa escola, ouvimos as crianças para construir nosso projeto. Elas adoram bichos”
- Todos os anos o projeto de sua escola é pautado no estudo dos bichos?, perguntei.
- Mas é o que as crianças trazem..”
Aqui reside o maior equívoco de interpretação pedagógica de que tenho notícia. Há uma lenda que circula ainda hoje pelos meios educacionais sobre as “borboletas em sala de aula”. Alguém conhece esta história? Uma sugestão do que poderia ser uma oportunidade para um grande projeto, foi compreendido como um “deve ser”.
Duas práticas decorrentes desta interpretação povoam o imaginário e as práticas dos educadores. A primeira é que a improvisação é bem-vinda e isto pode justificar a enorme dificuldade em planejar ou definir objetivos. A segunda ideia é a de que a única forma de respeitar a infância é ficar refém de seus interesses.  Minha argumentação, na ocasião do encontro foi e continua a mesma. Que interesses seriam esses?
A criança só fala sobre o que conhece, mas não seria um dos papéis da escola ampliar este repertório?
Sabemos que crianças adoram bichinhos, mas nós adultos somos responsáveis por este interesse, ou não? Basta correr os olhos na lista de títulos e personagens destinados para nossos bebês. Invariavelmente eles serão repletos de múúús, cócóricós e méés. O que dizer dos brinquedos para esta faixa etária? E das reações que provocamos em nossos pequenos quando paramos diante de um cachorro e transformamos a coincidência num acontecimento histórico, acompanhado da máxima: “Olha, um au,au!!!”
É fácil concluir que o interesse por “bichinhos” não é inerente à infância, é culturalmente estimulado, certo?
Diante desta análise, posso afirmar que as crianças se interessam por tudo aquilo que têm acesso ou por aquilo que as permitimos ter contato. Isto sim é um caso sério e precisa ser pensado e repensado.
Desconstruir a ideia de que há assuntos, problemas ou temas impróprios para as crianças faz parte do nosso projeto. Somos ousadas e responsáveis ao mesmo tempo. Isto é possível, sim!
Em nenhum momento tratamos de assuntos que não nos foram trazidos pelas próprias crianças e suas famílias, frente às provocações que fizemos.
Permita-se, professor, inovar em seus projetos!!!!! Provocar novos conhecimentos é o primeiro passo para a transformação!
Boa sorte!
Cibele Araujo Racy Maria





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