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sábado, 16 de março de 2013

FIGURAS DE AFETO - UM SONHO, UMA REALIDADE


Após cinco anos convivendo com as figuras de afeto criadas pela escola e alimentadas pelas ideias infantis, coube-me investigar a importância que esta estratégia teve no desenvolvimento de nossas crianças. E ainda, se foi possível produzir conhecimentos e avanços no processo de socialização através desses símbolos.
Dificilmente você encontrará artigos específicos sobre a importância das figuras de afeto no ambiente escolar, e este relato esta longe de esgotar um assunto tão pouco explorado.
Constatando o número considerável de crianças que traziam para a escola paninhos, chupetas, brinquedos e a sensação de segurança que estes objetos de transferência eram capazes de proporcionar, investi na criação de um objeto que possibilitasse igual sensação e que permanecesse na escola.  Até então, tinha a pretensão de estreitar e criar vínculos afetivos entre as crianças, suas famílias e a escola.
Em 2008 surge o primeiro espantalho da nossa horta. A fantasia e o encantamento tomaram conta desta história quando Tetelo, nosso espantalho, foi retirado para ganhar um belo banho de loja. A reação das crianças nos levou a considerar que tínhamos achado um tesouro. Questionadas pelo sumiço, a grande maioria decidiu que ele estava se sentindo muito só. Dias depois surge Tetelo, acompanhado de Tetela que,  por insistência infantil, era muito mais do que uma simples amiga.
Foi nesse momento que o “objeto”se  transformou em uma das “figuras de afeto” e são elas que vêm conduzindo todos os projetos didáticos da EMEI Guia Lopes.
Pareceu-me o momento oportuno para a introdução deste assunto quando a grande discussão das políticas públicas sobre educação infantil preconizam o cuidar e educar como sendo práticas indissociáveis.
De que forma abarcar a responsabilidade da escola em desenvolver habilidades sociais sem que para isso contássemos, apenas com as características pessoais dos educadores e profissionais da escola?  De que forma institucionalizar a importância do afeto numa escola de educação infantil? Como garantir a escuta das falas infantis tão preconizada pela pedagogia de projetos?
Pude perceber que as figuras de afeto foram capazes de seduzir nossos alunos e leva-los à pesquisa e a construção de conhecimentos com uma significação nunca vista em nossa escola.
 “As escolas deveriam entender mais de seres humanos e de amor do que de conteúdos e técnicas educativas. Elas têm contribuído em demasia para a construção de neuróticos por não entenderem de amor, de sonhos, de fantasias, de símbolos e de dores”.
Cláudio Saltini
Apropriando-me da essência do pensamento de Claudio João Paulo Saltini, inspirada por outros tantos teóricos da educação e agregando algumas convicções que adquiri durante alguns anos de magistério, é inegável a associação existente entre afetividade e inteligência/afetividade e aprendizagem.
Os assuntos relativos à história de vida dessas figuras de afeto representam os sonhos infantis da forma mais concreta possível. Nossas crianças já perceberam que sobre este assunto não há ninguém que saiba mais do que elas. Quando lançam perguntas sobre suas hipóteses, estão na realidade nos desafiando com sua criatividade, com sua imaginação. É um jogo onde o poder de criação não esta nas mãos dos adultos, mas com elas, as crianças.
Se o objetivo inicial era o de trabalhar a afetividade infantil e criar personagens pelas quais elas pudessem demonstrar seus sentimentos e necessidades além das quatro paredes das salas de aula, minhas expectativas foram superadas. As figuras de afeto nos auxiliam a manter unidade em nossos projetos, sem que para isso desconsideremos as especificidades dos diferentes grupos de crianças e professores.
Tetelo, Tetela, Sofia, Kauê e Azizi Abayomi nos possibilitam trabalhar a sexualidade, as relações étnico-raciais, sustentabilidade, consumismo, e outros projetos que ousamos sonhar, levando-nos a uma reflexão diária sobre as relações sócio-afetivas que envolvem as experiências infantis nos ambientes escolares e sua íntima relação com os processos de aprendizagem.
 Cibele Araujo Racy Maria
SP 16/03/2013

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